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Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

domingo, 1 de abril de 2012

Malinowski e o olhar antropológico

Bronislaw Malinowski é leitura obrigatória em qualquer curso de antropologia, tanto os que são montados para alunos de ciências sociais quanto aqueles oferecidos para estudantes de outras áreas. O autor é usado como exemplo de pesquisa de campo intensiva, o que envolve problematização, organização, escrita e, principalmente, treinamento do olhar.

Semana passada, participei de uma atividade que envolveu professores, estudantes de graduação e docentes da educação básica. O objetivo era discutir a proposta metodológica apresentada por Malinowski e iniciar um treinamento em pesquisa qualitativa, com ênfase na abordagem etnográfica.

Foi um momento interessante porque aqueles que ainda não conheciam o trabalho de Malinowski tiveram a oportunidade de apresentar as questões que a leitura do texto “Objetivo, método e alcance desta pesquisa[1] despertou. Foram muitas questões, principalmente relacionadas ao famoso recurso narrativo: “Imagine-se...”. Malinowski diz: “Imagine-se de repente desembarcado, rodeado por todo o seu equipamento, só, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, enquanto a lancha ou bote que o trouxe se afasta até desaparecer no horizonte (...)”.

A ideia é transportar o leitor para o primeiro momento em que o antropólogo se depara diretamente com o campo; um momento importante para a definição do profissional que decide fazer antropologia. Ele convida o leitor para um encontro objetivo com a cultura Trobriand e, simultaneamente, para um encontro subjetivo com o antropólogo que, naquele momento, estuda os Trobriand.

Quem parece mais com quem? O leitor pode se sentir identificado com as alegrias e agruras vividas por Malinowski, mas também pode sentir empatia pela cultura das Ilhas Trobriand. O recurso “Imagine-se...” neste caso, permite que o leitor passeie pelo texto malinowskiano como quem passeia por um texto literário. É claro que há diferenças e distâncias significativas entre o texto literário e o texto antropológico, mas... em ambos os casos o autor precisa contar uma história par um leitor desconhecido.

No bate-papo com os professores da educação básica, as identificações mais frequentes ocorreram entre eles e Malinowski. A justitifcativa pode estar no fato de eles terem lido apenas o capítulo que fala do método. Neste, os nativos das Ilhas Trobriand aparecem, mas muito pouco. Mas há outras leituras possíveis: os professores imaginaram a situação, se colocaram no lugar de Malinowski e pensaram no que fariam neste contexto.

O recado final do texto de Malinowski é: a antropologia precisa compreender o mundo com base na perspectiva do outro. Encontrar e analisar o “ponto de vista do nativo” passou a ser, a partir de Malinowski, a principal obsessão dos antropólogos. Ela tem nos guiado, inclusive, na antropologia urbana onde há a ilusão inicial de que os outros não são tão outros assim.

O recado final da atividade que desenvolvi com os professores é: quando levamos o recurso “Imagine-se...” às últimas consequências, podemos aplicar a proposta malinowskiana à leitura do próprio texto de Malinowski. De certa forma, quando os professores simpatizaram com Malinowski o fizeram porque estavam respeitando o ponto de vista de Malinowski sobre aquele mundo que ele próprio apresentava aos seus leitores.

E você, o que acha disso? Deixe seu comentário. 

Um detalhe: recebi alguns e-mails onde leitores reclamavam da necessidade de identificação para a postagem de comentários. Atendendo a pedidos... liberei as postagens. Não há necessidade de identificação. 
  



[1] Publicado em GUIMARÃES, A. Z. Desvendando Máscaras Sociais. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1980.

3 comentários:

  1. Quem são os outros? e nós, somos os outros de quem?

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    1. Nós e os outros somos dependentes uns dos outros. Da mesma forma que precisamos dos outros para que possamos definir nossa identidade por contraste, os outros precisam de nós para fazer o mesmo.

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  2. Oi Rodrique como posso ter o resumo do livro de B. Malinoski; Os argonutas do pacifico; in AAVV: Desvendando as mascaras sociais, 1990 Rio de Janeiro paginas 21 a 128

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