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Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

"Tem mais presença em mim o que me falta": Manoel de Barros e o futuro.

Eu gosto de poesia, e por algumas delas tenho um especial apreço. Vou colar uma delas aqui, com a licença de seu autor, Manoel de Barros. Depois vou dizer por quais motivos gosto tanto dela.

O livro sobre nada

Manoel de Barros

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

Tudo que não invento é falso.

Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

Tem mais presença em mim o que me falta.

Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.

Sou muito preparado de conflitos.

Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.

O meu amanhecer vai ser de noite.

Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.

O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.

Meu avesso é mais visível do que um poste.

Sábio é o que adivinha.

Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.

A inércia é meu ato principal.

Não saio de dentro de mim nem pra pescar.

Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.

Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.

Peixe não tem honras nem horizontes.

Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.

Eu queria ser lido pelas pedras.

As palavras me escondem sem cuidado.

Aonde eu não estou as palavras me acham.

Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.

A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.

Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.

Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.

O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.

Por pudor sou impuro.

O branco me corrompe.

Não gosto de palavra acostumada.

A minha diferença é sempre menos.

Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.

Não preciso do fim para chegar.

Do lugar onde estou já fui embora.

 

Esse é um dos meus poemas favoritos por causa de uma frase: “Tem mais presença em mim o que me falta”. A primeira vez que o li, pensei: como assim? Como o que falta pode ter tanta presença em alguém, ao ponto de a ausência ter mais presença do que a própria presença. Passei dias e dias pensando nessa frase, que não saia da minha cabeça nem a pau.

Depois de muito pensar entendi o que me incomodava e foi bom perceber que o incômodo advinha do fato de aquela bendita frase estar falando sobre mim, diretamente e sem nenhum entremeio. Qual era, afinal, a questão?

Descobri que o que me faltava era o futuro. Eu vivia de projetos e os projetos são, em certa medida, ausências, faltas, que se fazem presentes no plano das estratégias. Foi curioso ver a vida assim, entendê-la e aceitá-la. Mais curioso ainda pensar no quanto a cultura é responsável por tudo isso, por todas essas ausências. A antropologia demonstra que há sociedades que nós poderíamos classificar, com boa dose de etnocentrismo, como "sem futuro" porque não se pensam para além do presente, não têm projetos para além da vida cotidiana e mais próxima. Da mesma forma, há sociedades que dialogam com o passado de forma muito diferente. Em comparação, nós até mesmo as classificaríamos, com outra dose de etnocentrismo, como sociedades “sem passado” porque nem mesmo as datas de nascimento importam. São outros tempos e outros espaços que formam outras pessoas, com preocupações muito diferentes das nossas e das minhas em particular.

Não aboli os projetos da minha vida. Pelo contrário. Sou um cientista e cientistas vivem disso, de projetos, de faltas, de ausências. Esse é o nosso trabalho, mas não tem que ser, é claro, a nossa vida. Sigo com minhas faltas e minhas ausências, mas resolvi essa questão reservando um bom tempo para pensar nas presenças que não faltam. Elas envolvem símbolos, coisas e principalmente pessoas. Hoje, penso que o que mais importa são as pessoas, nada além delas. São elas que deixam marcas indeléveis em nossas existências. São elas que nos sacodem, esticam, esmigalham, constroem e reconstroem nossos cotidianos. Assumem papéis, trocam de papéis, nos amam, nos odeiam e nos amam de novo. São elas, as pessoas de nossas vidas.

Eu dedico esse post para todas as pessoas da minha vida. Vocês sabem quem são vocês e o quanto me sacudiram, esticaram, esmigalharam; construíram e desconstruíram a minha existência. Peço que continuem assim, exatamente assim; e espero ser assim para vocês também. Juntos podemos viver bem as presenças e ajudarmo-nos a lidar com as ausências. 

Um feliz ano novo para todo mundo.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Adeus, Ubirany. Quantas saudades a tua voz e a tua defesa do subúrbio deixarão!

Ubirany Félix do Nascimento morreu. Mais uma das vítimas da pandemia. Ele se foi, mas sua voz e suas realizações no mundo do samba deixaram marcar indeléveis na cultura brasileira em geral e na cultura carioca em particular.

Ubirany é reconhecido como um dos membros fundadores do grupo Fundo de Quintal e como o inventor do repique de mão. Isso tudo é verdade e o reconhecimento é mais do que legítimo. Aliás, trata-se de um inventor de um instrumento hoje produzido e vendido no Brasil inteiro e em boa parte do mundo, e que nunca foi patenteado pelo seu inventor. Bom, é como diz o samba do Candeia, “o sambista não precisa ser membro da academia. Ser natural com sua poesia e o povo lhe faz imortal...”.

Todas essas conquistas são impressionantes, mas eu quero ressaltar outro lado do Ubirany. Aquele ligado à identificação e a defesa da “cultura suburbana” do Rio de Janeiro. Ele sempre se apresentou como um homem do subúrbio, que tinha orgulho de ter nascido e vivido no subúrbio e que trazia outra perspectiva dessa cidade, apresentada pelos bairros recortados pela linha do trem. Ele era um homem de fala serena, que fazia questão de enfatizar que respeitava todos os tipos de música, mas que gostava mesmo era de fazer e cantar samba. Não foi um artista pensado – em termos de projeto – para ser artista. Como ele mesmo conta, a história do repique de mão começou quando ele estava em um samba na casa de amigos, tocando em um balde de alumínio, tudo em parte como obra do acaso. O mesmo aconteceu com o Cacique de Ramos e com o Fundo de Quintal. Não havia um projeto artístico cultural stricto sensu, mas sim o desejo de encontrar as pessoas, conversar, tocar e cantar samba; tudo sempre abençoado pelos orixás que guardavam a cabeça de sua falecida mãe e dele também.

Samba, candomblé, umbanda, carnaval, amizade, encontros fortuitos e despretensiosos. Era nesse mar que Ubirany navegava e foi assim que se tornou um ícone da cultura popular. O samba feito no fundo do quintal ganhou o Brasil e o mundo e ele, junto de seus parceiros, tornou-se uma referência nacional. Para aqueles que gostam de samba, vale a pena ouvir os discos do Fundo de Quintal e cantar junto todas as músicas que iluminam nosso mundo do samba, tanto aquelas escritas por eles quanto as pérolas de outros compositores consagrados nas vozes do grupo. Para aqueles que não gostam de samba, só tenho a dizer o seguinte: nunca é tarde!

Ubirany deixará muitas saudades. O mundo do samba chora e todos nós temos a obrigação de cuidar do legado cultural deixado por ele. De forma refinada e sutil ele sempre deixou claro que a cultura carioca é muito maior do que pensamos, que o subúrbio pulsa e que a poesia não tem lugar de nascimento. Ela está em todos e para todos.

Salve Ubirany! E que os orixás te guiem!!!

Deixo aqui uma das minhas preferidas. “Sonho de Valsa”, um samba triste, com metáforas impressionantes e carregado de sentimentos.

https://www.youtube.com/watch?v=6D9Pyp1RFy8