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Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

domingo, 12 de março de 2017

Karnal, Alencar e a inocência na política


A política brasileira contemporânea está cada vez mais pujante. Ídolos e ícones são rapidamente derrubados e a população felizmente está entendendo que a única diferença entre políticos de esquerda e de direita está na estratégia voltada para o público que cada político pretende ter como base. Nos últimos dias aconteceram dois fenômenos incríveis, dois jantares com boa comida e regados com excelentes vinhos. Quem jantou com quem? Leandro Karnal com Sérgio Moro e Chico Alencar com Aécio Neves e Cia.

Eu considerei esses dois jantares maravilhosos. Os cenários revelam, ou desvelam, dois homens que construíram suas figuras públicas com base na apresentação e na defesa radical e intransigente do pensamento de esquerda. Karnal e Alencar, ambos historiadores, mas com carreiras diferentes têm apontado suas críticas para a gênese do fascismo no Brasil, para a perseguição aos partidos e pensamentos de esquerda, para o retorno a tempos sombrios, etc... Daí a surpresa de muitos quando viram a fotografia de Karnal com Moro e as diversas matérias falando sobre o beija mão de Alencar para Aécio.

Eu não fiquei surpreso e nem tampouco abalado. Deixei de curtir ícones faz algum tempo, e essa mudança ocorreu quando mergulhei no universo dos movimentos sociais e da ação política. Qualquer um que tenha passado por essa experiência em algum momento da vida sabe bem que ícones e mártires são ótimos para representar coletivos, mas também sabe que eles só existem no mundo abstrato das ideias. No dia-a-dia, esses ícones e mártires são pessoas, com todos os dilemas e as misérias de qualquer outro ser humano. No caso dos políticos, o que um político mais deseja é manter-se político, e isso não é nada fácil no cenário brasileiro contemporâneo.

Chico Alencar é um político profissional. Foi ao jantar do Noblat porque tinha que ir, conversou com quem conversou porque quis conversar. Beijou a mão de quem beijou porque quis beijar. E fez tudo isso porque deseja continuar sendo Chico Alencar. Depois disso, tomou um puxão de orelha da opinião pública e fez um vídeo dizendo que errou, que nunca imaginou que a elite do governo estaria na festa do Noblat, que deveria ter ido embora assim que chegou, que não deveria ter conversado com o Aécio, etc... Não gostei do vídeo e gostei da situação. Ela demonstra que Chico Alencar é só mais um político sendo político.

Leandro Karnal é um cara genial. Transformou a filosofia em um objeto de mercado bastante lucrativo. Nos últimos tempos virou o filósofo de todas as coisas. Passou a oferecer análises/opiniões sobre qualquer assunto e consolidou-se como um quase guru de determinadas camadas que buscam no pensamento intelectual um norte para suas ações práticas. Ataca a direita, a extrema direita, publica frases de efeito e tem milhões de seguidores por isso. Depois vai jantar com Sérgio Moro, posta uma fotografia elogiando os vinhos e a conversa e indica que farão projetos juntos. Ao final, tomou um puxão de orelha de seus fãs e deletou a foto e as legendas. Também gostei da situação porque revela o Leandro Karnal sendo o Leandro Karnal.

Duas histórias com formas diferentes e conteúdos semelhantes. Ambos fizeram o que queriam fazer e ponto. Não há inocência em suas ações. Não há acaso, nem mesmo coincidência. Eles querem ser quem são e sabem bem o que precisam fazer para dar conta de seus desejos.

O mais fantástico disso tudo é que a população agora tem esse tipo de informação disponível e manifesta seu descontentamento com os ícones e mártires. Falta só um passo para entendermos de uma vez por todas que eles são apenas pessoas jogando um jogo bem difícil. Esperar que um grande nome (homem ou mulher) venha salvar a esquerda no Brasil é uma tremenda bobagem porque grandes nomes são apenas representações ativadas para legitimar determinadas ações. Acredito que esse ataque aos grandes ícones do momento é muito valoroso porque pode ajudar a esquerda a entender que sem projeto ela já era. A direita tem um projeto claro. E o da esquerda? Qual é? Ou produzimos um projeto coletivo de esquerda, ou, então, sejamos bem-vindos à era do pensamento de direita. Em ambos os casos ainda veremos muitos jantares, mas as motivações podem ser bem diferentes.

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