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Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Janele, Lou Reed e as fronteiras das cidades


Lou Reed dispensa comentários sobre suas habilidades musicais. Deus para alguns, Demônio para outros, navega pelas ondas das rádios de todo o mundo com suas letras repletas de ironias e sarcasmos que só poderiam ser produzidos por uma mente atormentada e um fígado opilado.

Não ignoro suas habilidades musicais, mas me interesso mais pelo toque literário presente em suas letras. Ele já foi chamado de poeta das esquinas de Nova York, mas eu preferiria chamá-lo de cronista das entranhas da metrópole e, quiça, das metrópoles.

Qualquer autor interessado em antropologia urbana deveria observar os versos de “Walk on the Wild Side”. Ela fala de personagens urbanos, vivendo suas existências nas fronteiras. Sexo, drogas, comportamentos desviantes compõem o cenário desta canção embalada pelas garotas que cantam “doo do doo do doo do do doo...”.

É curioso pensar nos motivos que levam estes personagens de fronteira a fazer tanto sucesso. Também é curioso elucubrar sobre os movimentos que fazem com que as grandes cidades cosmopolitas sejam espaços de confluência para estas existências reprimíveis em outros contextos.

Hoje ouvi “Walk on the Wild Side” e lembrei de uma história que permite lançar algumas hipóteses sobre as questões propostas. Trata-se de um caso clínico analisado por um professor em uma aula de psicologia da educação. Faz tempo que esta aula aconteceu, mas o caso é muito bom para pensar as fronteiras e as grandes cidades.  Não direi, é claro, o nome do analista e da paciente, mas garanto que é tudo verdade. Chamarei a paciente de Janele.

Janele vivia em uma cidade do interior do estado do Rio de Janeiro, uma cidade daquelas compostas pela praça, o coreto, a igreja, a prefeitura e....só isso mesmo. Era considerada a maluca da cidade. Vira e mexe enfrentava algumas crises onde saía cantando pela cidade, bebendo, dançando e dando para todo mundo. Os rapazes gostavam, mas a família ficava completamente envergonhada e sem saber o que fazer. O médico da cidade a medicava com calmantes fortíssimos e a internava por alguns dias. Passado o internato, Jane voltava ao “normal” e reassumia sua posição de “louca da cidade”, mas agora controlada.

Quando terminou o ensino médio,  Janele veio para a Capital, residir com alguns parentes que viviam no Rio fazia tempo, e estudar na Universidade. Ocorre que logo no primeiro semestre ela enfrentou uma de suas “crises”. Começou a cantar pelos corredores da Universidade, dançar com seus colegas de turma e dar para quem quisesse. Ficou uma semana assim e nada aconteceu. Melhor dizendo:  Janele não tomou medicamentos, não foi internada, não foi nem mesmo criticada. Ao contrário, ficou super popular entre os colegas e a família disse que ela estava se adaptando muito bem ao Rio de Janeiro.

Janele não entendeu nada, mas voltou ao “normal” mesmo sem os medicamentos. Semanas depois, teve outra “crise” e fez tudo de novo. Ficou ainda mais popular. Era muito querida por todos e sua agenda social vivia lotada. Resultado:  Janele surtou!

No surto, segundo o analista, perdeu completamente o senso de realidade; não sabia onde estava, quem eram seus amigos, sua família. Não sabia nem mesmo quem era. Depois de algumas semanas internada, Jane voltou ao “normal”.

Não vou entrar na seara dos psicólogos. Pouco interessa saber se Jane tinha ou não algum problema psicológico. O mais interessante é observar como os mesmos comportamentos em cenários diferentes promovem hostilidade e aceitação. Em sua cidade era louca. No Rio de Janeiro era legal. Em sua cidade precisava de remédios e internação. No Rio de Janeiro precisava de badalação... Estas contradições fundiram a cabeça da menina e ela acabou surtando de verdade. Não sei, sinceramente, se os “surtos” que aconteceram na cidade natal eram surtos mesmo, mas minha mentalidade interiorana consegue compreender as atitudes de sua família. Compreender, não concordar!

Não conheci nenhuma “Janele ” em minha cidade natal. Quando cheguei com minha mentalidade interiorana ao Rio de Janeiro e encontrei várias “Janeles” fiquei surpreso, mas foi uma surpresa extremamente positiva. Afinal, garotas que cantam e dançam e... não fazem mal a ninguém. Fazem bem!

Lá na minha cidade diziam que a cidade grande era perigosa porque era um lugar onde se podia tudo. Não sei se é verdade, mas se pode bem mais por aqui do que por lá. Este mundo urbano, cosmopolita, cantado por Lou Reed e analisado por toda a antropologia urbana tem uma poética própria. É um lugar de confluência de “malucos” onde todos os “malucos” são bem vindos, mesmo aqueles que desejam ou preferem caminhar exclusivamente pelo lado selvagem.




4 comentários:

  1. O mais curioso é que o Rio nem é tão cosmopolita assim, se comparado com São Paulo, por exemplo. A primeira vez que fui a São Paulo e 'caí' logo na Paulista fiquei lamentando o fato de eu ver tanta gente tão igual por toda a minha vida no Rio de Janeiro. Eu estava nos meus dezessete anos. Lamentei nunca ter ido a São Paulo e fugido da província que morava, o Rio. Um carioca atento ao mundo ao seu redor se torna uma Janele em São Paulo. O carioca desatento vai, volta e reclama que aquela cidade é muito feia.

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    1. Boa, Guilherme. Quando chego em São Paulo também vejo o Rio como uma província, mas cá entre nós, é uma bela e cosmopolita província.

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  2. Eu nunca fui em São Paulo, então nada posso dizer quanto ao seu comentário Guilherme. No entanto, venho de uma cidadezinha com praça, igreja e prefeitura. Quando vim morar no Rio me senti um peixe fora d'água...tudo era mto diferente, desde da roupa que vestia até o modo de me comportar. Os cariocas eram mto descolados para o meu gosto!rs. É mesmo interessante essa mudança, pra mim, mais interessante ainda a tentativa de se "encaixar" nesse espaço de confluência.

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    1. O mais engraçado, Amanda, é que nossas mentalidades se transformam em mentalidades de fronteira porque não abandonamos completamente nossa visão "interiorana" e nem incorporamos totalmente a visão cosmopolita presente na grande cidade.

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