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Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

domingo, 29 de julho de 2012

Professor Josué, o “sofressor” e a profissão docente

A série “Gabriela”, da rede Globo de televisão, como todos sabem, é baseada no livro “Gabriela, Cravo e Canela: crônica de uma cidade do interior”, escrito por Jorge Amado. Este livro é considerado um dos maiores exemplos de vitalidade da literatura nacional. 

Dentre os personagens que povoaram a imaginação de Jorge Amado, muitos remetem a tempos específicos da história brasileira. Os Coronéis do cacau, os estrangeiros que escolheram o Brasil como morada, os ex-escravos que, sem muito que fazer com a liberdade concedida, permaneceram nas fazendas como “trabalhadores livres”, os bacharéis e sua posição privilegiada em um contexto onde cultura escolar era privilégio de pouquíssimos, dentre outros.

De todos os personagens, o que mais chama minha atenção é o professor Josué. Não vou propor nenhuma comparação entre a descrição televisiva e aquela presente narrativa de Jorge Amado. Digo apenas que o professor Josué é mais denso no livro do que na novela.

Pois bem, o que pretendo comentar é a construção do personagem na novela. Josué é um jovem poeta maltrapilho que sobrevive das aulas que ministra no colégio das moças de Ilhéus. Suas vestimentas e seu andar lembram o de outro clássico maltrapilho: o Carlitos, de Chaplin. A diferença é que Carlitos era um adorável vagabundo enquanto Josué não o é. Será?

Josué é apaixonado por Malvina, menina considerada moderna por desejar liberdade para escolher a literatura que pretende ler. Seu grande feito foi ler “O Crime do Padre Amaro”; escondido de seus pais, é claro. Malvina é filha única do coronel Melk Tavares, homem de garbo e elegância, aliado político de Ramiro Bastos, o coronel dos coronéis.

Coronel Melk descobre a paixão nutrida pelo professor Josué e decide sabatiná-lo. Facão em punhos, acusa Josué de ser um bosta, um pobretão que não valia nada, um professor idiota que perde tempo escrevendo versos enquanto quase morre de fome. Josué permanece calado perante todas as ofensas e chega a concordar com as palavras de Melk Tavares. Sua feição só se modifica ao final, quando o coronel afirma que mesmo considerando Josué um bosta, permitiria que ele cortejasse Malvina. Josué explode em felicidade e começa a preparar a aproximação com a jovem menina.

O primeiro passo foi convidar Malvina para um sorvete. Como ela precisou levar uma amiga, Josué comprou e pagou três sorvetes, o que consumiu todas as suas economias de professor.

Algumas cenas mais tarde, Josué pede um jornal velho para tapar o enorme buraco de seu sapato. Comenta que todo seu dinheiro se foi com os sorvetes, mas mesmo assim está feliz. Em outro capítulo, Mundinho Falcão, rico exportador de cacau, oferece dinheiro para que o professor comprasse um sapato novo. Josué nega e diz que, mesmo pobre e professor, mantém sua dignidade.

O mais intrigante nestas cenas é o conjunto relações propostas: pobre + poeta + sonhador + maltrapilho = professor. Ainda bem, para nós professores, que este personagem só existe na ficção. Será?

Em uma atividade de pesquisa ouvi, de uma professora, um relato intrigante. Ela falava de sua irritação com um tipo de docente com o qual era obrigada a conviver: o “sofressor”. Sua fala provocou risos entre os outros integrantes do debate. Ela explicou que o “sofressor” é aquele que quando vai trabalhar usa sua pior roupa, a pior bolsa, o pior sapato e chega dizendo: vamos lá para mais um dia de trabalho porque “eu sou o sofressor”.

Indignada, a professora dizia que era fundamental acabar com essa imagem de “sofressor” porque ela passa um recado desanimador para todos os estudantes. Ela sintetizou da seguinte forma: “se um aluno vê o professor assim, quando é que ele vai querer estudar se é o professor quem melhor representa o estudo?”

É uma boa questão e, por isso, pretendo deixá-la em aberto. Farei apenas uma pequena provocação. Quando decidi ser professor ouvi dezenas de comentários sobre professores formados que estariam trabalhando em indústrias, padarias, lanchonetes, vendendo roupas na Rua Teresa (polo de comércio varejista de Petrópolis), entre outras funções.

Minha estratégia era simples: quando ouvia esta indicação por parte de alguém, pedia “humildemente”: você pode me apresentar um destes professores?

A sequência era sempre a mesma: bom, eu não conheço nenhum, mas todos sabem que eles existem.

Eu concordo! Eles existem em nosso imaginário coletivo. Mesmo que nunca tenhamos visto um professor padeiro, dizemos a todos que eles existem e sua existência é tão real quanto a do maltrapilho professor Josué, ou a dos “sofressores” que praguejam contra Deus e o mundo quando vão trabalhar.

Mas há outros professores nada maltrapilhos que escolheram a docência como profissão e meio de vida, conhecem as agruras da vida de mestre, mas nunca se percebem como fracassados. São amados e odiados pelos alunos, escrevem monografias, dissertações teses, artigos, livros, acreditam em sua capacidade intelectual e olham para as escolas e para os sistemas educacionais, principalmente os mais precários, como realidades mutáveis. Espero que todos os meus alunos, que em breve serão professores, sejam assim. Eu faço minha parte porque, definitivamente, não tenho vocação para “sofressor” e não ando com o sapato furado. E você?

4 comentários:

  1. Em uma escola de Petrópolis, enquanto trabalhava em uma turma de EJA me surpreendi com o comentário de uma das alunas. Aluna é muito carente e reclamava com razão, de inúmeros problemas que enfrentava em sua vida e das dificuldades que tinha todos os dias. Até que se voltando para mim disse: "Quer saber? Professor que sofre mais né? Ganha tão pouco e sofre tanto. Isso eu não quer pra mim não". Eu fiquei apavorada com tal comentário. No pensamento popular o professor é tão, mas tão pobre coitado que não há dor maior que a nossa.
    E olha que até agora eu não andei por aí com os sapatos furados.

    Abraços

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    1. Oi, Daiane.
      O problema é que em alguns casos esta representação de senso comum é referendada pelos próprios professores. Neste caso o problema é ainda maior.
      Abraço,

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  2. Muita coincidência... estava pensando sobre isso outro dia... e cheguei à mesma conclusão: o professor não pode passar uma imagem de derrotado para seus alunos, pois esses o tem como exemplo. Que seja então, um bom exemplo.
    Isso me remete àquela máxima de que "imagem é tudo"...

    Abraços da sua aluna,
    Gabriela Loureiro D`Avila

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  3. Oi, Gabriela.
    Tem toda razão!!! Qualquer profissional que passe esta imagem está contribuindo para que os alunos nem pensem em ser professores.
    Abraço,

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