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Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

domingo, 10 de junho de 2012

Escolhas familiares e estratégias de acesso às escolas do sistema municipal de educação do Rio de Janeiro: navegação social em um espaço de disputa.



O texto a seguir é o resumo do trabalho selecionado para o encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS/2012. Foi escrito em parceria com a antropóloga Ana Pires do Prado. É o resultado de um esforço coletivo, desenvolvido no LaPOpE - Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais. Os professores Marcio da Costa e Mariane Koslinski também colaboraram diretamente com este trabalho. A pesquisa inicial foi proposta por eles. 

O trabalho completo será apresentado no evento e estará disponível para consulta, leitura e impressão. Parta quem não conhece a ANPOCS, o site é http://www.anpocs.org.br/portal/. Vamos ao texto:

Em 2011 realizamos 54 entrevistas com pais de estudantes de escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro. Em uma delas, uma mãe afirmou: “Eles não querem crianças tipo daquela ´inclusão social`”. Ela fazia referência à uma escola pública que possuía critérios estipulados pela direção para escolher os seus alunos. Essa entrevista indica que as famílias escolhem as escolas para seus filhos a partir de determinados fatores e que o acesso à vaga, em alguns casos, depende dos critérios determinados pelas escolas, rompendo com a ideia de oferecimento universal e equânime de oportunidades educacionais.

A situação descrita ocorreu durante o trabalho de campo de um survey sobre a distribuição de oportunidades educacionais no Rio de Janeiro. O trabalho faz parte da pesquisa “O Funcionamento de Quase-Mercados Educacionais e a Segmentação Escolar” proposta pelos sociólogos Marcio da Costa e Mariane Koslinski. Insere-se, portanto, nos debates sobre desigualdades educacionais com foco na hierarquização e estratificação de escolas nos sistemas municipais de educação.

Inicialmente, o survey foi proposto com o objetivo de obter informações quantitativas sobre as escolhas feitas pelas famílias, com foco nos critérios que as orientam e nas estratégias utilizadas para o acesso às escolas. A pesquisa apresentava uma abordagem metodológica inovadora. Incluía, ao final do questionário, uma questão geral que deveria ser gravada. 

Os primeiros questionários indicaram que a gravação tornara-se importante porque os entrevistados apontavam detalhes dos processos de escolha e acesso às escolas. Os entrevistados também citavam informações relevantes enquanto respondiam às questões objetivas, mas estas informações não eram registradas porque o foco estava no questionário. Decidimos gravar todo o encontro de pesquisa e reconstruímos metodologicamente a investigação. Propusemos que os aplicadores trabalhassem em duplas e realizassem observações etnográficas durante os encontros de pesquisa. Foi necessário realizar um treinamento, que contribuiu para a reflexão sobre a prática antropológica e a “grafia” etnográfica. O resultado foi a ampliação do diálogo entre as abordagens antropológica e sociológica e, principalmente, o refinamento das análises empreendidas. 

Nesse trabalho temos dois objetivos: (i) descrever a organização da rede municipal de educação da cidade do Rio de Janeiro, principalmente o remanejamento de alunos do primeiro para o segundo segmento do ensino fundamental; (ii) apresentar os processos utilizados pelos agentes sociais que interagem em situações de escolha e disputa por vagas no ensino fundamental, utilizando os dados obtidos com as entrevistas e com as observações etnográficas.

A rede municipal do Rio de Janeiro tem uma peculiaridade: a maioria de suas escolas não oferece o ensino fundamental completo. Em geral as escolas oferecem um dos segmentos do ensino fundamental. Essa situação faz com que os alunos tenham que mudar de escola após os cinco primeiros anos de escolarização. Esse processo é denominado na rede de remanejamento. Até 2011, os pais escolhiam três escolas em ordem de prioridade e os filhos eram alocados em uma delas. Em 2011, os pais puderam escolher cinco escolas. A lista tríplice passou a ser lista quíntupla. Nossos entrevistados, no entanto, trocaram de escola em 2009 e preencheram a lista tríplice. 

Em todos os casos, os familiares precisam escolher as escolas que desejam para os filhos. A análise das entrevistas permitiu propor uma tipologia para a interpretação dos processos de escolha de escolas. Há três tipos de escolha: (i) Escolha com a utilização exclusiva da burocracia municipal (escolha dirigida), que corresponde a processos de escolha em que os pais não tiveram atuação direta na eleição da escola. São casos em que os familiares acatam à indicação realizada pela burocracia municipal para escolher a escola. Como consequência, os filhos têm acesso às escolas escolhidas para eles pela própria burocracia das escolas em que estudavam durante o primeiro segmento, (ii) Escolha com a utilização de relações pessoais na burocracia municipal, situação em que os pais consultaram suas redes de solidariedade/relações pessoais dentro da burocracia municipal para a orientação de suas escolhas e (iii) Escolha com a utilização de relações pessoais externas à burocracia municipal. Este tipo corresponde aos processos de escolha em que os pais consultaram suas redes de solidariedade/relações pessoais externas à burocracia municipal. 

Também identificamos três estratégias de acesso: (i) Acesso com a utilização exclusiva da burocracia municipal, que corresponde aos processos de matrícula em que os pais, após escolherem a escola desejada, iniciam o processo de acesso utilizando exclusivamente a burocracia municipal, (ii) Acesso com a utilização da burocracia e das relações pessoais, situação em que os pais, após escolherem a escola desejada, iniciam o processo de acesso utilizando redes de solidariedade/relações pessoais com pessoas da própria burocracia municipal ou com pessoas que os conectam à burocracia municipal para o início do processo de matrícula na escola desejada e (iii) acesso com a utilização exclusiva de redes de relações pessoais, que corresponde aos processos de matrícula em que os pais, após escolherem a escola desejada, iniciam o processo de acesso utilizando, exclusivamente, suas redes de solidariedade/relações pessoais fora da burocracia municipal. 

Os resultados e análises, embora preliminares, são expressivos e nos permitem ampliar o debate sobre a relação das camadas populares com a escolarização em um sistema estratificado. Os dados apontam que as redes sociais presentes no campo de possibilidades de cada família tendem a orientar as escolhas e os acessos às escolas, principalmente as mais prestigiadas, o que influencia diretamente a qualidade da formação escolar dos estudantes e desafia o ideário republicano de oferecimento universal e equânime de oportunidades educacionais.

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