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Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O Maraca não é mais nosso!


             A proximidade com a copa do mundo no Brasil está mexendo com muita gente. Há os eufóricos, que já estão loucos pelos jogos; os mal-humorados, inclusive eu, que vivem xingando o prefeito, o governador, a Dilma e a FIFA por causa das obras; e há também os reflexivos, que estão pensando em outras mudanças, mais ligadas ao campo dos sentimentos. Dentre eles está meu amigo com nome de Santo Guerreiro: Jorge. Ele escreveu um belíssimo texto contanto sua primeira experiência no maracanã (a primeira a gente nunca esquece). É um texto bonito e triste porque narra uma história que as próximas gerações não viverão. O novo maracanã ganhou o padrão higienizado da FIFA, mas perdeu a alegria dos desdentados, dos “geraldinos” e do encontro caloroso com a alegria proporcionada pelo futebol. Sem mais palavras, segue o texto do Jorge. O título do post também é dele!

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         “Que apreensão! Campeonato brasileiro de 92, jogo decisivo para a classificação e lá ia eu pela primeira vez ao Maraca. Fico arrepiado só de lembrar. Falar esse nome remete-me àquele Maracanã, por isso arrepia. Trafegava pela avenida Brasil em direção ao maior do Mundo, de carona com amigos dos amigos (era outra época), pois era a forma de perder a virgindade sem correr maiores riscos. Imaginava no caminho como seria chegar ao estádio antes de um jogo; já tinha-o visto por fora, frio, mas belo. Mas como seria num jogo? Entrar, sentar, ver as cabines de rádio, os repórteres em campo, a torcida, as placas de publicidade. Ah! ...... e o jogo, é claro! Vou tentar descrever uma das melhores emoções que tive na vida, mas será difícil; só quem viveu saberá. Não sabia que entrávamos nas arquibancadas do Maraca por um túnel, parecido com os jogadores entrando em campo. Cada vez que subia mais a rampa do túnel, ... o barulho aumentava; a claridade anunciava algo grandioso por detrás daquele ruído. Senti meus batimentos num intervalo de tempo menor; num cálculo bem rápido percebi que estava acelerado, pensei em física e no movimento uniformemente acelerado do meu coração, e em como faria para calcular a velocidade dos batimentos. Quando se está nervoso, o tempo quase pára; então por mais que caminhasse o momento tão esperado não chegava. O túnel era interminável! Até que avistei..... Era o outro lado da arquibancada por onde eu entrava. Era lindo! Único! Acho que na fé em meu ateísmo pensei; ...... meu Deus!!! O verde ofuscou-me, e as vozes próximas atrapalharam um pouco aquele momento, que por instante agora era totalmente silencioso. Meu e dele, do Maraca. Isso mesmo, personalizei aquele mundão de concreto. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo por carta, telefone, e-mail (ops novamente), mas nunca tinha encontrado com ele pessoalmente. Caminhei na direção de um assento levado pela multidão que estava ao meu lado, na frente e atrás de mim. Não tinha relógio, portanto não sabia se iria começar o espetáculo (jogo); quanto faltava, mas não importava. Já havia vencido a todos. Todos que nunca tiveram a oportunidade de passar por aquilo; ou todos que passaram e não perceberam a sutileza do evento. A certo tempo já estava delimitando arquibancadas, .... cadeiras azuis, ..... geral, ..... até o pessoal mais abastado em um setor; pois mesmo que a onda de senta e levanta não terminasse ali, percebia-se que o espaço onde se encontravam era menor que todo o estádio. Ah! O jogo vencemos por 2 x 0 e nos classificamos, mas nem os gols compararam-se à emoção que senti. Outros possivelmente sentirão a mesma emoção que senti no “new maracanã” (expressão usada pelo jornalista Mauro César da ESPN), mas algumas coisas são só minhas. O túnel, não sei porque, é diferente. Pode ser pelo fato de não ser mais virgem. O fosso, por mais que a palavra soasse estranha a ouvidos outros; no meu era usado para realçar o palco principal; o picadeiro. A delimitação entre os setores não há mais; nem diferenciam os mais abastados. Há quem possa pensar que antes é que existia o segregacionismo devido às divisões; mas penso o inverso. Hoje parece que só tem um setor. A última vez que fui a um jogo me senti realmente numa arena; onde a quantidade de tablets ganhava de goleada dos radinhos e dos negros. Como já dizia Titãs, não acredito em ninguém com mais de 32 dentes! Onde está o desdentado do Maraca?”
(C.J. Riger – Doutor em bioquímica, viciado em esportes e apaixonado pelo futebol).

Jorge recomenda: “Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor, com direção de Lúcio de Castro”, episódio sobre o Chile e diz: “o esporte nos revela muito mais do que pensamos”.





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