Quem sou eu

Minha foto
Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A perspectiva feminina na matança do porco e outros animais.

Minha prima, Adriana Machado, escreveu um texto detalhando a participação das mulheres e das meninas nos rituais. Ela revela uma série de questões, inclusive relacionadas à socialização das meninas para serem moças "prendadas" e habilitadas ao casamento. Vamos ao belo texto:

Por: Adriana Machado

Sou a prima do antropólogo Rodrigo Rosistolato, a que morava em outro bairro. 

Sempre vivi em meio aos animais, minha vó criava galinhas, coelhos e porcos. Depois do seu falecimento, meu pai adquiriu por herança esse hábito até os dias de hoje. Detalhe: é aqui na cidade grande. 

Houve uma época em  que a cozinha iria ser modificada para um novo cômodo,  mas meu pai comprara um porquinho achando que seria pequeno, e o bichão cresceu tanto que não tinha lugar para ficar, a obra foi esquecida esperando o tal famoso dia de matar o cachaço!! 

Os homens não deixavam as crianças participarem do momento da morte, diziam que a morte seria dolorosa se ficássemos  com  pena. No dia marcado, dependendo do tamanho  do animal e se o matador perdesse a confiança, inicialmente o porcão ganhava uma marretada na cabeça para "tontear," e depois o punhal era a ferramenta utilizada para sangrar o bicho. 

Nesse momento as mulheres se reuniam  para amolarem facas, preparar temperos, escaldar as latas em que as carnes seriam guardadas depois de prontas, porque nada era congelado.

Os homens permaneciam até o porco ser  morto, sapecado, aberto, separado o sangue e começar o tiragosto.

Posterior a isso tudo.

As mulheres iniciavam os trabalhos, lavar as tripas para o preparo do chouriço e das linguiças. Separar o toucinho das carnes, temperar e cozinhar tudo. 

Não tinham hora para dormir, só depois de tudo pronto. Os  homens sumiam da cozinha ou do quintal. Esse trabalho era exclusivo das mulheres e das meninas, que não podiam sair de perto, porque tinham que aprender como era feito todo o processo para a carne não estragar . 

Se a gente tentava escapar, a vó chamava: "vem menina, tem que aprender , como vai ser uma moça prendada, quem vai querer casar com océ!!" 

Ah, detalhe: era tudo feito no fogão a lenha, as mulheres ainda precisavam cuidar da lenha para não deixar que o fogo apagasse. 

Quanto às galinhas, também eram as mulheres que matavam, limpavam e cozinhavam sozinhas, sem ajuda dos homens. Isso quando as galinhas mesmo sem pescoço não ficavam pulando pela casa, sujando tudo até morrerem! 

Era um terror, hoje a gente ri!!! 

Não sei se devo comentar mas até hoje,  mesmo  sem espaço, meu veinho tem um galinheiro, convivo com o cheiro, o canto do galo na minha porta todos os dias. 

Mas não reclamo, é uma distração e uma briga sem tamanho entre ele e minha mãe! 

Ele quer matar umas galinhas de vez em quando para comer, e quem teria que depenar, limpar e fazer é a minha mãe. 

Ela não deixa. Diz que na panela dela não vai colocar galinha  nenhuma, porque demora mais de três horas no fogo para cozinhar!! Com isso, eles discutem e as galinhas vão vivendo até morrerem de velhice!!! 

É saudoso relembrar, sabores que não se igualam a nada hoje. 

Porém existem essas questões sobre as tarefas a serem realizadas, essa é do homem e essa é da mulher.

Contudo quais são as tarefas masculinas e femininas ???



sábado, 23 de abril de 2022

A matança do porco e os rituais de masculinidade

Matar porco na minha infância era “coisa de homem”. Os porcos eram criados nos quintais das casas e enquanto cresciam eram tratados como membros da família. Eram bem alimentados, cuidados durante a manhã, à tarde e à noite. Eles tomavam banho, recebiam afagos e até mesmo conversávamos com eles. Por vezes, gostávamos mais de uns do que de outros. Havia porcos mais violentos e outros mais carinhosos de forma que nossas relações com eles variavam em acordo com a “personalidade” que os bichos desenvolviam.

No mundo meio rural e meio urbano no qual nasci e cresci, todos os animais eram parte constitutiva das relações familiares. Havia muitas responsabilidades relacionadas a eles e muitos afetos. No caso dos animais de casa, como cães e gatos, eles viviam o tempo todo conosco. Já os animais de quintal, como porcos, galinhas, coelhos, ficavam fora da casa e eram proibidos de entrar. As galinhas vez ou outra quebravam essa regra e chegavam a fazer seus ninhos no interior das casas. Nesse caso, e somente nesse, elas tinham salvo conduto para permanecer na casa enquanto chocavam seus ovos, a não ser que os ovos fossem consumidos sem serem chocados. Daí elas tinham que voltar para o quintal imediatamente.

Minha mãe não era muito de criar bichos. Não era a dela. Já minha tia, que vivia na parte baixa do mesmo terreno, amava os bichos, tanto ela quanto meu tio. Minha outra tia por parte de mãe também criava bichos, mas eu não tinha contato diário com os bichos dela porque ela morava em outro bairro. No caso do nosso terreno, eu ficava para lá e para cá e sentia como se tivesse duas casas, duas mães, dois pais e mais duas irmãs que eram as minhas primas. Quando criança, entrava e saia de ambas as casas sem qualquer constrangimento. Eu também participava da “cria” dos animais da minha tia. Era divertido porque sempre tínhamos histórias dos e com os bichos. Alguns recebiam nomes, outros eram adjetivados por suas características mais ou menos agressivas, mais ou menos bagunceiras... e boa parte deles virava também “brinquedo de crianças”. Eu, meus irmãos e minhas primas vivíamos inserindo os animais nas brincadeiras, inclusive as galinhas que nos forneciam ótimas brincadeiras de detetive. Elas vez ou outra fugiam para o mato para “botar” seus ovos e era divertidíssimo segui-las e descobrir seus berçários secretos. Elas nos odiavam por isso e nos atacavam com seus bicos certeiros, mas nem ligávamos. Afinal, a diversão era acabar com o segredo das galinhas.

Havia diferenças centrais entre os bichos da casa e os do quintal. Os da casa ficavam conosco até morrer. Nunca eram comidos. Já os do quintal tinham um tempo mais curto conosco, duravam até o momento em que viravam um banquete. A morte dos animais era algo sereno nas minhas visões de criança. Os bichos de quintal estavam lá para serem consumidos em algum momento especial, e enquanto não eram, faziam parte de nossa vida. Não havia em mim grandes dilemas com relação a isso, embora tanto eu quanto meus irmãos e minhas primas nos afeiçoássemos aos bichos e precisássemos, por vezes, organizar despedidas para eles.

Em uma conversa de boteco com minha amiga Andréa Osório, antropóloga especializada nas relações humano/animal, contei a história da matança dos porcos. Ela ficou relativamente surpresa com o ritual porque embora conhecesse outros rituais de matança, os que vivi eram um tanto quanto diferentes. Vou contar agora o que contei para ela. Não se trata de um relato antropológico stricto sensu e eu jamais me meteria nas discussões antropológicas sobre as relações entre humanos e animais. Não tenho nenhuma entrada nesse campo. O relato deve ser lido como a descrição de uma memória de um homem que foi um menino meio da roça meio da cidade e depois virou antropólogo.

O ritual de matança dos porcos começava nas decisões sobre o momento certo de matá-los. Eles só eram imolados quando estavam gordos e bem crescidos, já estalando. Sabia-se que estavam prontos por intermédio de observações rotineiras diversas. Olha que pernilzão,  essa costelinha tá pedindo para ir para o prato já, que torresmo que vai dar, veja como está estalando. Para saber se estava estalando dava-se um tapa na “bunda” dos porcos e quando se ouvia um estalo sabia-se que era hora do bichinho, ou do bichão, virar comida. Daí iniciavam-se as tratativas para definir a hora certa.

A matança do porco dependia de uma logística relativamente complicada. Tinha que acontecer nos finais de semana porque envolvia outras pessoas da família extensa. Só os da casa não davam conta. Em geral, vinham o pai do meu tio, que era quem sabia matar o bicho, sua esposa, algum irmão de meu tio com a esposa e as crianças; e outros homens, amigos da região que iriam ajudar a segurar o bicho. Meu pai nunca participava porque “tinha pena”. Não se pode ter pena do bicho porque dizia-se que ele demora mais para morrer, sofre muito e até estraga a carne. Por isso, meu pai se recolhia e só aparecia bem mais tarde, quando o porco já estava morto e tinha virado petiscos, torresminhos e estava virando linguiça, costelinhas...

O pai do meu tio não tinha pena do bicho. Carregava um punhal que tinha entre 30 e 40 centímetros e sabia exatamente onde enfiá-lo, perto do “suvaco do bicho” para atingir o coração e permitir que o animal tivesse uma morte tranquila. Ele criticava muito aqueles que não sabiam “enfiar o punhal” porque acabavam dando várias punhaladas e faziam o bicho sofrer. No caso dele, a precisão o definia. Bastava uma única punhalada e o sangue jorrava como se fosse uma mangueira estourada. Era evidente que o coração fora atingido e logo o porco estaria morto. Enquanto o coração, mesmo apunhalado, ainda batia, recolhia-se o sangue que escorria para feitura do chouriço, uma iguaria que os porcos nos proporcionavam.

O pai do meu tio era tão sagaz que por vezes ele também segurava o bicho. Essa era a função principal dos homens. Usava uma mão para segurar e outra para apunhalar, e ainda dava bronca nos homens que não estavam “segurando direito”. Se não segurassem ele iria errar e o “bicho iria sofrer”. Ele sempre dizia: “ara, sô. Um bando de homi que não consegue segurar um bichinho desse. Bora, segura, sô”.

Em geral a bronca dele funcionava bem, mas quando os homens não seguravam direito ele mandava soltar. Daí deixavam o porco ficar mais calmo, relaxar, até que reiniciavam a matança. Quando isso acontecia, o pai do meu tio ficava bem bravo, mas logo se acalmava quando finalmente conseguia garantir a morte justa e serena do porquinho.

Depois de morto o porco dá um trabalhão danado. É necessário queimar os pelos, uma depilação que ocorre com muito álcool, foco e facas amoladas. Primeiro joga-se álcool em todo o corpo, depois o fósforo faz o papel dele. O fogo queima os pelos quase até a raiz e depois disso, raspa-se a pele queimada para retirar toda aquela matéria orgânica e deixar o porco bem limpinho. É necessário retirar os pelos até a raiz para que eles não “brotem na feijoada ou no torresmo”. Se os pelos não são totalmente retirados, quando as peles são cozidas ou fritas elas reduzem em tamanho e os pelos que já não apareciam mais acabam “brotando” estragando a estética do prato, o paladar dos comensais e deixando as cozinheiras envergonhadas. É por isso que não se pode usar uma simples gilete para depilar o porco. Além dos pelos serem muito grossos, a gilete não arranca a raiz dos pelos. Às vezes elas até eram usadas, mas o que resolvia mesmo era o fogo e a faca. Talvez hoje, as modernas ceras depiladoras dessem um jeito, mas não acredito muito.

Depois de queimado o porco é aberto pela barriga, retiram-se as vísceras e elas são lavadas, principalmente as tripas que depois de tratadas eram usadas para as linguiças e o chouriço. Daí o porco é progressivamente cortado, tratado, dividido. O ritual de divisão da carne é muito complexo e não caberia nesse post que já está ficando grande demais.

Mas, afinal, o que tudo isso tem a ver com masculinidade?

Bom, já dei algumas pistas. São os homens os responsáveis por matar, há uma hierarquia clara entre quem vai enfiar o punhal e os outros. Ser acusado de não segurar o porco direito é um ataque direto à masculinidade. Mas o que quero salientar para fechar o post é o meu lugar nisso tudo e um ponto específico do ritual que causou espanto à minha amiga na conversa de boteco.

Eu era um menino e como tal era lido como alguém que estava “aprendendo a ser homem”. Por isso, eu participava de tudo. Acordava cedo, antes de o dia raiar, ficava de papo tomando café, era vítima de todas as brincadeiras que homens adultos fazem com um moleque que quer lhes acompanhar, ajudava a segurar o bicho e finalmente chegou o dia em que virei homem.

Depois que as vísceras são retiradas, as costelas do porco ficam expostas e delas brota um “sangue ralo”, que conforme vai acumulado é retirado para compor o chouriço. Parte desse sangue, às vezes, é retirado com uma canequinha pequena e consumido pelos homens que mataram o bicho. Em uma das matanças, eu já estava longe dos homens, junto com minhas primas e quando começaram a beber o bicho eles me chamaram de volta. Fiquei surpreso com o chamado e corri até lá. Um deles me entregou a canequinha e disse: “vamos ver se é homem, já. Bebe o bicho”. Eu devia ter uns 10 ou 11 anos e não me fiz de rogado. Peguei a canequinha e bebi. Senti um gosto diferente. Esperava algo salgado e era também doce. Meio agridoce. É provável que eu tenha feito uma cara engraçada porque os homens caíram na gargalhada e disseram “tá aí, moleque. Agora virou homem. Sai fora daqui”.

Saí de lá todo pimpão ostentando aquela masculinidade adulta que eu acabara de receber depois de beber o bicho. Uma de minhas primas disse: “que nojo. Como é que você pode fazer isso? Vai lavar essa boca!”, ao que respondi: “eu não. Nojo nada. Isso é coisa de homem”.

Atualmente não há mais porcos criados em casa pela minha família. Houve muitas mudanças e passamos a ser mais urbanos do que rurais. Além disso, as normas sanitárias mudaram, o que também orientou mudanças culturais relacionadas aos bichos da casa e do quintal. Com isso, pelo menos no âmbito da minha família, os rituais de matança se perderam no tempo, junto com os rituais de masculinidade. Hoje não sei o que eu faria em meio a um ritual destes. Talvez reativasse o menino rural que ainda habita em mim, ou ficasse recolhido como meu pai para não atrapalhar a matança. Vai saber!


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Petrópolis: tragédias são tragédias quando não são anunciadas.

Sou petropolitano e tragédias como a de hoje atravessam toda a minha vida. Já fui flagelado (é o termo que sempre usamos nessas situações), precisei abandonar uma das casas em que residi, a casa da minha infância, perdi amigos, familiares, vivi as dores da diáspora de vários que, como eu, de uma hora para outra viam seus mundos desaparecerem. Boa parte da minha família já perdeu tudo pelo menos uma vez. Alguns, mais de uma vez. 

Hoje uma prima perdeu todos os bens materiais. Um amigo de infância correu risco de vida ilhado em pleno centro da cidade, outros amigos estão apavorados com o que estão vendo, vivendo, sentido. 

As tragédias acontecem. Chove muito? Sim! Há encostas que deslizam? Sim! Os rios transbordam? Sim! Mas junto de tudo isso há décadas e décadas de total descaso dos poderes públicos com a cidade e todos os seus moradores. 

Petrópolis cresceu muito nos últimos 50 anos. Não vou encher esse post de dados porque não é esse o propósito. Cresceu muito, foi e é mal administrada. Boa parte da tragédia é simples tragédia, mas outro tanto é fruto de simples descaso. 

Nestes momentos todos sofrem e choram. Choram aqueles que foram diretamente atingidos e outros que não perderam nada, mas têm empatia com aqueles que perderam. 

A tristeza impera e ainda há muito por vir. Infelizmente está somente começando. 

E nesses momentos, como em tudo que é ruim no Brasil, quem mais sofre são os mais pobres, mais pretos, mais abandonados desde que nasceram. Perdem familiares, perdem amigos, perdem os bens materiais que nem têm para perder e morrem. 

É tragédia, é flagelo, é isso tudo. Mas também é muita incompetência das nossas gestões públicas nas últimas décadas. 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Dona Lilica, a “mãozinha boa” e a opressão dos corpos na escola.

A transição da segunda para a terceira-série do primário era um momento importante para as crianças da minha geração. Atualmente essa terminologia não existe mais. Optei por mantê-la pelo fato de o texto tratar de um tempo histórico específico. Nós nos sentíamos grandes e iríamos para uma série que era “muito mais difícil do que as anteriores. As mães ficavam nervosas com isso e havia muita ansiedade para saber em qual turno e qual turma cada criança iria estudar.

Na minha escola, havia um “problema extra”. Todas as mães ficavam preocupadas com a possibilidade de os filhos irem para a turma da Dona Lilica. Dona Lilica é um nome fictício que estou usando aqui para contar essa história. Tratava-se de uma professora que tinha fama de má. Dizia-se que ela era formada em matemática e não admitia que nenhuma criança fosse aprovada sem que tivesse aprendido tudo o que ela tinha a ensinar. Eu realmente não sei se ela era formada em matemática. Era incomum na época ter professoras com uma formação diferente do normal e/ou da pedagogia, mas no imaginário da escola, sim, ela era a matemática.

Eis que quando fui enturmado lá estava eu na turma da Dona Lilica. Minha mãe ficou nervosa, conversou comigo. Minha tia, mãe de uma das minhas primas que estudava na mesma escola também ficou assustada e conversou com a minha mãe e comigo. Caramba! Agora não tinha jeito. Eu seria um aluno da Dona Lilica.

Fiquei apavorado! Além de ter que cursar a terceira-serie, ainda seria aluno da dona Lilica. Lembro-me de que as férias passaram e lá fui eu com meu uniforme novo, sapato vulcabraz 757 engrachadinho, cabelo cortado a contragosto em direção à turma.

Logo no primeiro dia cometi um erro crasso. Antes de qualquer coisa Dona Lilica perguntou quem ali era repetente. Eu não sabia o que era ser repetente. Levantem a mãos aqueles que não são repetentes, disse Dona Lilica. Fiquei lá com a mão abaixada.

Bom, vocês que são repetentes, saibam que não vão passar de ano só porque são repetentes. Eu não quero saber. Aqui, ou aprende ou não aprende, vociferava Dona Lilica no auge de sua cátedra. Daí perguntei para o colega ao lado, que era repetente, o que era isso, afinal. Ele me explicou e eu levantei a mão para desfazer o erro. A resposta de Dona Lilica foi a seguinte: você está bem, heim, grandão. Eu tinha, naquela época, quase a altura de Dona Lilica. Não sabe nem mesmo se é ou não repetente. Grande, grande e bobo desse jeito.

Depois de tamanha acolhida, começamos com a aula do dia, que era exatamente de matemática. Logo no primeiro dia! Eu já estava nervoso e fiquei mais ainda quando ouvi: você, grandão, explique aí como se monta uma divisão com três algarismos. Você fala e eu escrevo. Gaguejei solenemente por alguns segundos e Dona Lilica finalizou: era o que eu esperava mesmo. Pode até não ser repetente, mas não sabe nada. Na verdade, ninguém sabia. Ninguém tinha aprendido ainda, mas a turma permaneceu em silêncio como se dominasse plenamente a operação. Mesmo assim, lá foi Dona Lilica retomar o conceito de divisão para depois iniciar a discussão sobre divisão com 3 algarismos.

Meu maior problema com Dona Lilica, no entanto, não foi a matemática. A questão toda era minha mão. Eu tinha uma mão ruim na perspectiva dela. Uma das minhas mãos era ruim porque a outra era boa, a “mãozinha boa”. Certa vez ela me chamou para receber uma das atividades que ela tinha corrigido. Quando cheguei em sua mesa, estendi a mão esquerda e ela me disse: “essa não, menino. Pegue com a mãozinha boa”. Realmente não entendi do que se tratava, mas a “mãozinha boa” só podia ser a direita porque eu só tinha duas. Estiquei a mão direita e ela me entregou a tarefa.

Eu não sabia bem o que estaca acontecendo. Anos mais tarde, descobri que eu tinha uma tendência a ser ambidestro. Eu usava as duas mãos indiscrimidadamente, inclusive para pintar, escrever, etc, e isso era inconcebível para Dona Lilica. Ela logo entendeu que minha letra era horrível por conta de eu usar às vezes a “mão ruim”. Logo, eu tinha que aprender a usar somente a “mãozinha boa”. Ela chamou minha mãe para conversar e disse: a letra desse menino é uma porcaria. Ninguém entende nada. Compre um caderno de caligrafia para ele e eu vou passar exercícios de caligrafia todos os dias e ele só pode fazer com a “mãozinha boa”. Nem minha mãe entendeu aquilo até que Dona Lilica puxou minha “mãozinha boa” e disse: “essa aqui é a mãozinha boa. Só pode escrever com essa”

Eu fiquei muito encucado com aquilo. Por que, afinal, a minha mão esquerda era tão ruim? Ela nunca tinha feito nada contra a Dona Lilica. E mesmo assim era permanentemente torturada! “coloca essa mão ruim para trás, menino. Aqui, só com a mãozinha boa”.

E lá fomos nós, um longo ano em que a pobre coitada da minha mão esquerda fora oprimida na sala de aula da Dona Lilica. No final das contas, a minha letra continuou horrorosa, é assim até hoje. Eu passei de ano mesmo assim, e o que aconteceu é que minha mão esquerda ficou de escanteio. Acabei destro para a maioria das tarefas.

É curioso porque muitos anos depois eu tive contato com a obra do Robert Hertz, que escreveu um texto com o sugestivo título: “a preeminência da mão direita: um ensaio sobre a polaridade religiosa”. Ele foi um sociólogo francês que morreu em serviço na primeira guerra mundial e teve, por isso, sua carreira interrompida. Ele nos deixou esse belíssimo texto no qual ele explica toda a cosmologia relacionada às oposições entre as mãos direita e esquerda. No ensaio, ele critica severamente quaisquer explicações meramente biológicas para o uso majoritário da mão direita e descreve todo o universo sociocultural representado por essa oposição entre as mãos. Quando o li, ainda na graduação, lembrei-me de Dona Lilica.

Hoje, na pandemia, decidi ver se eu ainda conseguiria escrever e pintar com a mão esquerda. Faço diversas coisas com ela, mas não essas duas. Conversei muito com minha mão para livrá-la do trauma de ter sido estigmatizada como uma mão ruim. Ela já elaborou tudo e está até conseguindo escrever algumas coisinhas, mas com muita dificuldade. Infelizmente, a crença de Dona Lilica na existência de uma “mãozinha boa” em posição superior à “mãozinha ruim” contribuiu para que eu abandonasse todas as possibilidades trazidas pela ambidestria. Acredito que eu teria acessado outros processos cognitivos caso tivesse investido nas possibilidades da minha “mãozinha ruim” ao invés de oprimi-la e estigmatizá-la.

Enfim, não culpo ninguém. Nem mesmo Dona Lilica. Meu irmão caçula mais tarde conviveu com a Dona Lilica também. Ele, que sempre foi bem menos obediente do que eu, levava a Dona Lilica no bico o tempo todo. Ela o adorava e era outra mulher também. Não sei o que aconteceu de bom na vida dela, mas algo aconteceu. Ela nem mesmo era chamada de Dona Lilica. Tinha abandonado o nome em prol de um doce apelido, que não poderei contar aqui para não denunciá-la.

E por que não vou denunciá-la? Simplesmente porque não foi só culpa dela. Como o próprio Hertz explica, a polaridade esquerda versus direita quando se trata das mãos não tem nada de natural. É social. Dona Lilica fora totalmente doutrinada por esse universo social dividido e não conseguiu sair dele. Também parece-me muito evidente que ela nunca lera o Hertz. Fica a dica!

Deixo aqui um beijo para a senhora, Dona Lilica. A senhora deve estar bem velhinha. Por isso, deixo também um afago na cabeça, mas feito com a “mãozinha ruim”. Espero que a senhora goste!

 

 

 

 


sábado, 31 de julho de 2021

“Vamo tampá na porrada, moleque?!”

A sociabilidade masculina durante infância e a adolescência tem algumas questões no mínimo curiosas. É interessante observar como os meninos resolvem seus conflitos, afirmam suas masculinidades e desenvolvem gramáticas interativas recheadas de violências de todos os tipos.

O “vamo tampá na porrada, moleque?!” é um misto de interrogação e exclamação, usado em contextos nos quais a conversa dá lugar a um tipo de relação jocosa com a violência física. Tampar na porrada significa sair no braço, brigar para resolver uma querela causada por divergências sobre qualquer coisa: futebol, meninas, familiares, escolhas estéticas, tanto faz. Mas também ocorre sem que haja nenhuma querela evidente. Algo do tipo, já que não temos nada para fazer “vamo tampá na porrada, moleque?!”.

Esse tipo de relação é curioso porque à primeira vista é difícil saber se é uma briga de fato ou de brincadeira. Observar os recreios nas escolas é um belo exercício para aprender a diferenciar um e outro caso, e decifrar todos os códigos envolvidos. O mais difícil de entender é que o “vamo tampá na porrada, moleque?!” quase nunca “é a vera”. Se for, a sequência da afirmativa é “e vai ser a vera”. Nesse caso, não se trata de uma relação jocosa com a violência física. É violência mesmo, briga de fato.

Em ambos os cenários os meninos trocam socos, pontapés, rolam no chão, mas no primeiro deles todas essas ações são performatizadas. São socos e pontapés por vezes seguidos de sonoplastias que imitam prestigiosamente verdadeiros golpes, mas com uma quantidade de força que promove o toque, mas sem a possibilidade de machucar o oponente. Nos agarrões, acontece algo parecido. Gravatas, mata-leões, imobilizações são usadas para submeter o oponente e vencer a briga.

Todas essas ações têm códigos muito claros para quem as pratica. Se, por exemplo, em um mata-leão o menino subjugado diz: “tá machucando”, a “porrada” acaba na hora para não correr o risco de “ficar a vera”. Se isso ocorre, o grupo que observa intervém; todo mundo “tampa na porrada” e logo estão rindo e brincando juntos novamente.

Os motivos para “tampá na porrada” são mais ou menos legítimos dependendo do grau de agressão a certos bastiões da masculinidade. Mexer com a irmã de alguém, por exemplo, está no topo dos motivos possíveis. Nesses casos, a jocosidade começa com um “elogio” à irmã de alguém. Algo do tipo: “vi tua irmãzinha ontem. Tá crescendo. Muito gostosinha”. A sequência lógica é: “moleque, vamos tampa na porrada?!”, ao que oponente responde, por exemplo: “vai alimentando ai para mim”, que é o gatilho para tamparem na porrada.

As mães também são figuras sacrossantas. Mexer com a mãe de alguém gera porrada imediatamente, mas nesses casos tende a ser a vera e o grupo todo participa. Com as irmãs um pouco menos, primas vem na sequência, já com as amigas ocorrem variações diversas, desde tamparem na porrada imediatamente até ficarem horas citando as amigas uns dos outros como possíveis meninas que eles irão comer. Nesse caso, só tampam na porrada se algum deles estiver enamorado ou apaixonado. Daí é porrada na certa e pode até ser a vera.

O mais curioso desse fenômeno é que os conflitos esgotam-se na porrada, inclusive quando é “a vera”. Depois disso eles seguem juntos como se nada tivesse acontecido.

Eu, quando pequeno, “tampei na porrada” várias vezes, com praticamente todos os meus amigos. Naquele momento, via como algo natural. Ser menino era “tampar na porrada”, defender minha irmã, minha mãe, minhas primas de qualquer ataque jocoso feito pelos outros moleques. Porrada “a vera” foram poucas, mas ocorreram também e nunca havia ressentimentos posteriores ao ato em si. Eu também “tampava na porrada” com meu irmão caçula o tempo todo. Ele adorava “tomar umas porradas” e me provocava até que eu cedia. Hoje ele pode me provocar a vontade porque quem tomaria porrada seria eu, mas quando ele era pequenininho e até a adolescência era a nossa principal brincadeira.

Depois de velho, antropólogo em formação, fiquei muito surpreso ao ver o mesmo fenômeno nas escolas que observei. Os moleques tampavam na porrada o tempo todo e usavam exatamente os mesmos códigos de etiqueta da porrada.

Há dezenas de interpretações plausíveis sobre esse fenômeno. É possível argumentar que trata-se de uma cultura masculina de entendimento dos corpos – do eu e do outro; que é uma forma de referendar masculinidades hegemônicas bem ao estilo mediterrâneo; que as “porradas” fundamentam visões de mundo com claras divisões de gênero nas quais os homens têm que proteger as mulheres que amam; que as “porradas” cimentam laços sociais e afetivos entre os meninos porque “não dá pra confiar em alguém com quem você nunca tampou na porrada”. Enfim, são muitas interpretações possíveis, inclusive várias outras para além dessas.

Estou escrevendo esse post porque eu realmente achava que com a progressiva relativização das fronteiras de gênero o fenômeno do “tampa na porrada” cairia em desuso. Ocorre que outro dia, na pracinha aqui perto de casa, observei dois meninos caminhando com seus skates na mão. Pareciam irmãos, mas não sei se eram. O menor, do nada, deu um chute no skate do maior, que caiu no chão. Imediatamente, o maior disse: “Vamo tampá na porrada, moleque?!”, deu-lhe uma gravata e performatizou vários socos no estômago do menorzinho.

Ali pertinho, duas velhinhas se entreolharam. Uma gritou: “para com isso, menino. Vai machucar”. E a outra respondeu: “que nada, tão só brincando. É coisa de menino”.

Não sei se hoje o “vamo tampá na porrada” é só coisa de menino. Pode ser que as meninas também estejam tampando na porrada por aí; mas parece-me que entre meninos, adolescentes e também entre homens adultos, que foram meninos e por vezes o repetem, inclusive com seus filhos, ele permanece como um dos rituais de masculinidade mais constantes.  

Observando tudo isso, penso que há algo muito interessante para se pensar nesse ritual. A “porrada”, nesses casos, só promove a paz. Quando ela acaba, acabou a guerra. Daí ficam duas questões. Por que os meninos precisam tanto desse diálogo violento para se afirmarem como homens? E quais são os elementos que encerram o conflito assim que acabaram de “tampar na porrada”? São boas questões, mas em certa medida extrapolam os limites da abordagem antropológica. Deixo-as aqui para pensarmos juntos.


sábado, 26 de junho de 2021

O mundo inteiro cabe num abraço

Eu sou um bom abraçador. Gosto sempre de abraçar as pessoas queridas e até mesmo aquelas que acabei de conhecer. Por vezes as pessoas estranham. Afinal, quem é esse cara que mal me conhece e chega me abraçando?!

Há diversos tipos de abraços, é claro. Desde os mais formais, aqueles em que os corpos mal se encostam e terminam com batidinhas de mãos nas costas, até aqueles mais tesudos, em que os corpos se colam e as mãos aproveitam para das uma espiada no corpo alheio, tentando comprovar o que os olhos já viram ao sentir as texturas da pele, calores, odores e por aí vai. Enfim, nesse gradiente há dezenas de tipos de abraços e nós, brasileiros, em geral já provamos de todos eles.

A pandemia trouxe uma coisa muito esquisita. Agora encontramos pessoas queridas e não as abraçamos. Trocamos soquinhos com as mãos, damos tchauzinhos, jogamos beijinhos ao ar, fazemos movimentos meio esdrúxulos com o corpo inteiro sem bem saber como demostrar o quão felizes nós estamos ao encontrar aquela pessoa.

Eu tenho observado esses encontros com muita atenção. Outro dia, em uma praça aqui pertinho de casa, duas senhoras se encontraram. Deram um grito e quase pularam uma para cima da outra. Foi tão interessante observar porque elas fizeram dezenas de movimentos com seus corpos. Pularam, ergueram as mãos, se auto-abraçaram como se se abraçassem, jogaram beijinhos, mexeram nos cabelos e aquela dança durou uns bons segundos. Depois começaram a conversar, falaram dos filhos – que as proibiam de fazer qualquer coisa além de todos aqueles gestos corporais quando encontravam alguém na rua – falaram da pandemia, das saudades, da vida “perdida”, do isolamento. Sim! Eu ouvi tudo! Não me meti na conversa delas, mas elas falavam em volume considerável e eu apenas fiquei ali sentado e ouvindo o quanto as senhoras odiavam seus filhos. Elas os odiavam e amavam porque sabiam que todas aquelas proibições eram simplesmente fruto do cuidado, do carinho e de um medo danado de perderem suas mães para a COVID.

As duas senhoras são um exemplo dos muitos encontros que presenciei enquanto observo as nossas ruas pandêmicas. Por que será que os abraços e o contato corporal nos fazem tanta falta? É claro que há muito de cultura nisso. Vários antropólogos já demonstraram o quanto essas interações são marcadas pela cultura. Vejam, por exemplo, o brilhante artigo escrito por Michel Bozon e Maria Luiza Heilborn – "As carícias e as palavras: iniciação sexual no Rio de Janeiro e em Paris", disponível aqui: http://www.clam.org.br/bibliotecadigital/uploads/publicacoes/as%20caricias%20e%20asa%20palavras%20q1.pdf . Eles me ajudam a dizer que há povos mais e menos abraçadores e acariciadores, tanto no mundo público quanto no universo privado.

De qualquer forma, por aqui, em geral, gostamos muito de um abraço, de um amasso, de um sarro e fazemos isso no mundo público e no mundo privado quase sem quaisquer constrangimentos. Mas agora não podemos, pelo menos não podemos com todo mundo como fazíamos antes. Ops! Lembrem-se das gradações. Nem todo mundo recebe abraço formal e nem todo mundo recebe abraço com amasso. Isso varia infinitamente de pessoa para pessoa e da gramática dos desejos que nos orienta diariamente. Estou fazendo essa ressalva para não pensarem que vejo o Brasil como o país onde todo mundo é amassador e sarrador de todo mudo. Eu jamais diria isso! Há muitos e muitos abraços singelos, fraternos, carinhosos e por aí vai...

Eu espero que essa pandemia acabe logo para que possamos distribuir abraços aleatoriamente, sem qualquer restrição, e todos os tipos de abraços. Seja lá qual for o tipo que você venha a oferecer ou receber, sempre cabe um mundo ali dentro daqueles braços e corpos emaranhados. Um mundo que dura um instante, mas que nos desloca das durezas da vida para a plenitude daquele momento.

Enquanto não dá para abraçar todo mundo, abrace quem dá! Eu vou abraçar todo mundo que ler esse post, mas por enquanto só virtualmente!

Um abração para todo mundo!!!

 

 

 

 

 

 

domingo, 6 de junho de 2021

As prisões simbólicas dos nossos mundos internos

Semana passada meu grupo de pesquisa discutiu um texto sobre as juventudes pobres. Ele foi escrito por um grupo de pesquisadores e tem como autor principal o Robert McDonald, um professor de Educação e Justiça Social do Huddersfield Centre for Research in Education and Society (HudCRES), da University of Huddersfield. Tracy Shildrick, Colin Webster e Donald Simpson são co-autores do artigo. Na época em que foi escrito todos estavam na University of Teesside.

O titulo do artigo é bastante sugestivo com relação à proposta. Chama-se “Growing Up in Poor Neighbourhoods: The Significance of Class and Place in the Extended Transitions of ‘Socially Excluded’Young Adults”. As referências completas seguem-no final do post.

Os autores apresentam uma pesquisa qualitativa longitudinal realizada com jovens europeus durante os períodos de transição entre a escola e o trabalho. São jovens pobres, que cresceram em zonas e ambientes pauperizados em termos materiais e estão transitando progressivamente da heteronomia infantil para a autonomia trazida pela chegada ao mundo adulto.

O texto apresenta dados importantes da pesquisa e lança um argumento central. Qual seja: de que jovens que nascem e crescem em comunidades pauperizadas podem vir a negar oportunidades de mobilidade social para si mesmos por conta da força dos laços que desenvolveram com suas comunidades durante toda a vida. Não bastaria, portanto, que a sociedade oferecesse oportunidades educacionais. Ela teria também que, em certa medida, preparar os jovens para os custos – afetivos, psicológicos e simbólicos – trazidos quando da opção individual pelo uso dessas oportunidades.

A vida comunitária – como as ciências sociais já demonstraram largamente – cria uma série de coisas. Dentre elas, duas são principais: o senso de pertencimento e a segurança subjetiva trazida pela permanência na zona de conforto criada pela socialização na própria comunidade. Essa regra vale para qualquer comunidade, inclusive as localizadas em zonas pauperizadas como aquelas que foram estudadas por McDonald. Os relatos dos jovens são singulares com relação a isso. Eles identificam todos os problemas presentes em suas comunidades, mas indicam que são problemas conhecidos e sob os quais eles têm algum nível de controle. Por isso, viver naquela localidade é ruim e muito bom. É ruim porque há problemas e muito bom porque eles estão seguros mesmo em meio àquele conjunto de problemas.

As falas dos jovens, homólogas àquelas anunciadas por vários jovens que entrevistei no Brasil, apontam o quanto é difícil mergulhar e um processo de individuação enquanto toda a cultura na qual foram socializados é orientada pelo contrário: por existências coletivizadas ao ponto de as individualidades serem reduzidas ao mínimo.

Os laços simbólicos que amarram os jovens às suas comunidades por vezes colocam-se como verdadeiras prisões subjetivas. São subjetivas exatamente porque não há nenhuma grade concreta os impedindo de romper com o circuito de reprodução daquela cultura coletivista em direção à uma cultura individualista. Mas embora não sejam concretas, tais grades os prendem e fazem com que até mesmo sonhos alimentados durante toda a infância sejam abandonados em prol da vida coletiva, da manutenção do reconhecimento de pertencimento àquela comunidade e da proteção trazida por todos os laços materiais e simbólicos ali presentes.

A opção pelo mergulho em processos de individuação envolve muitas dores e muitas delícias. Há também culturas que, ao contrário, enfatizam a individuação como o caminho mais legítimo para a vida adulta e elas também trazem dilemas, principalmente quando os jovens “prefeririam” a experiência coletiva em detrimento da individual.

Individuação e coletivização são duas forças divergentes e todos nós traçamos nossos caminhos – nos limites da individualidade de nossas escolhas – entre uma força e outra, mais ou menos afetados por uma ou outra. Casamento, parentalidade, trabalho, educação, migração são fenômenos sociais diretamente afetados pela tensão entre essas duas forças.

Casar ou estudar? Ter filhos ou apostar na carreira? Construir uma casa junto aos pais e à família extensa ou abandonar o bairro onde nasceu e construir uma casa sem laços com a parentela? Concluir a faculdade (ou a escola) e aposentar o diploma ou permanecer na luta para reconhecimento no campo profissional para o qual foi formado? Ou tentar articular dois caminhos aparentemente antagônicos na medida exata do que é possível fazer?

Todas essas questões afligem jovens do mundo inteiro e o fato mais concreto é que elas não têm uma resposta para além dos resultados efetivos trazidos pelas escolhas dos jovens. Não há nada além de expectativas quando um jovem opta por um ou outro caminho. Seja lá qual for a opção, em geral ela é pautada por expectativas positivas com relação ao futuro, mas sempre consideram – em alguma medida – níveis possíveis de fracasso. O maior problema que se coloca para os jovens que cresceram em comunidades pauperizadas é que se eles optarem pela individuação as chances de fracasso sempre parecem maiores. Não são necessariamente, mas parecem. Por outro lado, se optarem por aquilo que as suas comunidades pensaram para eles, as chances de sucesso são aparentemente muito maiores exatamente porque o sucesso é simplesmente a manutenção do reconhecimento e do pertencimento àquela comunidade. Esse sucesso também não é, necessariamente, garantido, mas é lido como se fosse. Permanecer junto à família e a comunidade de origem aparentemente garantirão níveis de sucesso e felicidade individual, mas isso não é nada além de expectativa.

Qual o preço individual que você que aguentou essa leitura até aqui está disposto ou disposta a pagar para mergulhar em um processo de individuação? E o preço para aceitar passivamente aquilo que sua comunidade quer fazer de você? Em ambos os casos há dores e delícias.

O mais legal do texto do McDonald e de tantos outros antropólogos e sociólogos que escreveram sobre essa temática é perceber que ninguém que passa por esses dilemas está sozinho. São todos dilemas da juventude e a juventude é vivida coletivamente. Em síntese, por mais que seu sofrimento subjetivo pareça imenso, tem um jovem ou uma jovem do seu lado sofrendo em proporção equivalente. E nesse caso, como dizemos aqui no Rio de Janeiro, sempre vale a pena trocar uma ideia.

Referências completas do artigo:

Macdonald, R., Shildrick, T., Webster, C., & Simpson, D. (2005). Growing Up in Poor Neighbourhoods: The Significance of Class and Place in the Extended Transitions of ‘Socially Excluded’Young Adults. Sociology, 39(5), 873-891. https://doi.org/10.1177/0038038505058370