Quem sou eu

Minha foto
Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

sábado, 18 de agosto de 2012

Roberto Carlos, os homens e suas mulheres - dica de final de semana




Eu sempre escutei as músicas de Roberto Carlos. Sabia que era brega, mas minha mãe adorava. Ela nunca foi muito interessada em televisão, mas agia como uma leoa quando meu pai sugeria que ela deixasse de assistir ao especial de final de ano do “Rei”.

Eu achava engraçado porque meu pai provocava, dizia que iria desligar a televisão, e ela atacava afirmando que ele estava morrendo de ciúmes do “Rei”.

Esta novelinha doméstica, depois de alguns anos, me fez pensar nos motivos que transformavam Roberto Carlos na trilha sonora da vida de tantas pessoas. Afinal, minha mãe não era a única. Todas as amigas também adoravam o “Rei”. Era uma adoração diferente. A beleza nunca era citada porque o encanto estava na voz e nas músicas.  

Bem mais tarde, quando li o clássico da boêmia carioca “Noites Tropicais”, do Nelson Motta, percebi que ele malhava Roberto dizendo que o “Rei” imitava João Gilberto. Depois admitiu que acompanhou Roberto Carlos em alguns shows, cedeu aos seus encantos e pediu um autógrafo. Ainda disse que nunca tinha pedido autógrafo de ninguém, mas com o “Rei” era diferente.

Que poder é esse? Minha mãe não ignorava e cena musical da década de setenta e anteriores. Gostava da jovem guarda, ouvia os tropicalistas. Meu pai gostava e cantava os clássicos da década de 1930 até 1950. Mas ela gostava mesmo era do “Rei”.

Ontem recebi uma intimação de minha esposa. Nós vamos assistir “à beira do caminho”. O que fazer em uma hora dessas? Apenas dizer: claro, amor. Que ótimo!

Segui para o cinema um tanto quanto desanimado. Não tinha muitas expectativas com relação ao filme, mas fui com o coração aberto. Logo nos primeiros minutos o personagem principal, um caminhoneiro, se desfaz em lágrimas ao som de... Roberto Carlos. Incrível!!!

Nunca tinha pensado na força das letras emocionais do “Rei” para os homens, principalmente para homens no perfil “machão tradicional”. O filme segue ao som do Roberto e há muitos momentos emocionantes. Não digam a ela que contei, mas minha mulher chorou o tempo todo. Eu não chorei porque tenho que manter a minha fama de mau.

“À beira do caminho” é um filme que fala de emoções vividas por homens rústicos e machões. Não vou entrar em detalhes porque não sou crítico e nunca serei. Aliás, detesto críticos de cinema, música e literatura. Detesto alguns acadêmicos também, mas isso não vem ao caso. Quero apenas indicar a excelente performance de Vinicius Nascimento, jovem ator que contracena com João Miguel e Dira Paes. O garoto tem algumas tiradas excepcionais. Vai aprendendo a ser homem com o caminhoneiro João e, ao mesmo tempo, o ajuda a arrancar do peito a dor que guardava e que só era liberada, aos poucos, quando ouvia as primeiras estrofes de “Nossa Canção”:

Olhe aqui, preste atenção
Essa é a nossa canção
Vou cantá-la seja aonde for
Para nunca esquecer
O nosso amor
Nosso amor!...

O filme é, sem dúvida, minha dica para o final de semana. 

domingo, 29 de julho de 2012

Professor Josué, o “sofressor” e a profissão docente

A série “Gabriela”, da rede Globo de televisão, como todos sabem, é baseada no livro “Gabriela, Cravo e Canela: crônica de uma cidade do interior”, escrito por Jorge Amado. Este livro é considerado um dos maiores exemplos de vitalidade da literatura nacional. 

Dentre os personagens que povoaram a imaginação de Jorge Amado, muitos remetem a tempos específicos da história brasileira. Os Coronéis do cacau, os estrangeiros que escolheram o Brasil como morada, os ex-escravos que, sem muito que fazer com a liberdade concedida, permaneceram nas fazendas como “trabalhadores livres”, os bacharéis e sua posição privilegiada em um contexto onde cultura escolar era privilégio de pouquíssimos, dentre outros.

De todos os personagens, o que mais chama minha atenção é o professor Josué. Não vou propor nenhuma comparação entre a descrição televisiva e aquela presente narrativa de Jorge Amado. Digo apenas que o professor Josué é mais denso no livro do que na novela.

Pois bem, o que pretendo comentar é a construção do personagem na novela. Josué é um jovem poeta maltrapilho que sobrevive das aulas que ministra no colégio das moças de Ilhéus. Suas vestimentas e seu andar lembram o de outro clássico maltrapilho: o Carlitos, de Chaplin. A diferença é que Carlitos era um adorável vagabundo enquanto Josué não o é. Será?

Josué é apaixonado por Malvina, menina considerada moderna por desejar liberdade para escolher a literatura que pretende ler. Seu grande feito foi ler “O Crime do Padre Amaro”; escondido de seus pais, é claro. Malvina é filha única do coronel Melk Tavares, homem de garbo e elegância, aliado político de Ramiro Bastos, o coronel dos coronéis.

Coronel Melk descobre a paixão nutrida pelo professor Josué e decide sabatiná-lo. Facão em punhos, acusa Josué de ser um bosta, um pobretão que não valia nada, um professor idiota que perde tempo escrevendo versos enquanto quase morre de fome. Josué permanece calado perante todas as ofensas e chega a concordar com as palavras de Melk Tavares. Sua feição só se modifica ao final, quando o coronel afirma que mesmo considerando Josué um bosta, permitiria que ele cortejasse Malvina. Josué explode em felicidade e começa a preparar a aproximação com a jovem menina.

O primeiro passo foi convidar Malvina para um sorvete. Como ela precisou levar uma amiga, Josué comprou e pagou três sorvetes, o que consumiu todas as suas economias de professor.

Algumas cenas mais tarde, Josué pede um jornal velho para tapar o enorme buraco de seu sapato. Comenta que todo seu dinheiro se foi com os sorvetes, mas mesmo assim está feliz. Em outro capítulo, Mundinho Falcão, rico exportador de cacau, oferece dinheiro para que o professor comprasse um sapato novo. Josué nega e diz que, mesmo pobre e professor, mantém sua dignidade.

O mais intrigante nestas cenas é o conjunto relações propostas: pobre + poeta + sonhador + maltrapilho = professor. Ainda bem, para nós professores, que este personagem só existe na ficção. Será?

Em uma atividade de pesquisa ouvi, de uma professora, um relato intrigante. Ela falava de sua irritação com um tipo de docente com o qual era obrigada a conviver: o “sofressor”. Sua fala provocou risos entre os outros integrantes do debate. Ela explicou que o “sofressor” é aquele que quando vai trabalhar usa sua pior roupa, a pior bolsa, o pior sapato e chega dizendo: vamos lá para mais um dia de trabalho porque “eu sou o sofressor”.

Indignada, a professora dizia que era fundamental acabar com essa imagem de “sofressor” porque ela passa um recado desanimador para todos os estudantes. Ela sintetizou da seguinte forma: “se um aluno vê o professor assim, quando é que ele vai querer estudar se é o professor quem melhor representa o estudo?”

É uma boa questão e, por isso, pretendo deixá-la em aberto. Farei apenas uma pequena provocação. Quando decidi ser professor ouvi dezenas de comentários sobre professores formados que estariam trabalhando em indústrias, padarias, lanchonetes, vendendo roupas na Rua Teresa (polo de comércio varejista de Petrópolis), entre outras funções.

Minha estratégia era simples: quando ouvia esta indicação por parte de alguém, pedia “humildemente”: você pode me apresentar um destes professores?

A sequência era sempre a mesma: bom, eu não conheço nenhum, mas todos sabem que eles existem.

Eu concordo! Eles existem em nosso imaginário coletivo. Mesmo que nunca tenhamos visto um professor padeiro, dizemos a todos que eles existem e sua existência é tão real quanto a do maltrapilho professor Josué, ou a dos “sofressores” que praguejam contra Deus e o mundo quando vão trabalhar.

Mas há outros professores nada maltrapilhos que escolheram a docência como profissão e meio de vida, conhecem as agruras da vida de mestre, mas nunca se percebem como fracassados. São amados e odiados pelos alunos, escrevem monografias, dissertações teses, artigos, livros, acreditam em sua capacidade intelectual e olham para as escolas e para os sistemas educacionais, principalmente os mais precários, como realidades mutáveis. Espero que todos os meus alunos, que em breve serão professores, sejam assim. Eu faço minha parte porque, definitivamente, não tenho vocação para “sofressor” e não ando com o sapato furado. E você?

sábado, 30 de junho de 2012

LaPOpE on line


O Site do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades educacionais - LaPOpE já está on line.

O LaPOpE dedica-se à investigação do problema clássico da distribuição de oportunidades educacionais, em todos os níveis de escolaridade. Este problema, sabe-se, está intimamente associado à estratificação social e às diversas formas de segmentação observadas nas sociedades contemporâneas. Com abordagens típicas das ciências sociais, enfatiza aspectos socioeconômicos, culturais, demográficos, raciais e espaciais da desigualdade educacional. Suas pesquisas são produto da atividade coletiva de seus membros, em busca de recursos teóricos e metodológicos em diálogo com a literatura nacional e internacional. 

O LaPOpE adota procedimentos de pesquisa envolvendo o tratamento e a análise de dados em grande escala, produção de dados primários através de surveys, entrevistas, grupos focais, observação, georreferenciamento, análise socioespacial e documental, e demais recursos de modalidades qualitativas e quantitativas de pesquisa.

Somos um grupo de professores com especialidades complementares. Eu, Marcio da Costa, Mariane Koslinski, Ana Pires do Prado, Silvina Fernández, Gabriela Honorato e Rosana Heringer.



Vejam o site:
http://www.lapope.fe.ufrj.br/

domingo, 10 de junho de 2012

Escolhas familiares e estratégias de acesso às escolas do sistema municipal de educação do Rio de Janeiro: navegação social em um espaço de disputa.



O texto a seguir é o resumo do trabalho selecionado para o encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS/2012. Foi escrito em parceria com a antropóloga Ana Pires do Prado. É o resultado de um esforço coletivo, desenvolvido no LaPOpE - Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais. Os professores Marcio da Costa e Mariane Koslinski também colaboraram diretamente com este trabalho. A pesquisa inicial foi proposta por eles. 

O trabalho completo será apresentado no evento e estará disponível para consulta, leitura e impressão. Parta quem não conhece a ANPOCS, o site é http://www.anpocs.org.br/portal/. Vamos ao texto:

Em 2011 realizamos 54 entrevistas com pais de estudantes de escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro. Em uma delas, uma mãe afirmou: “Eles não querem crianças tipo daquela ´inclusão social`”. Ela fazia referência à uma escola pública que possuía critérios estipulados pela direção para escolher os seus alunos. Essa entrevista indica que as famílias escolhem as escolas para seus filhos a partir de determinados fatores e que o acesso à vaga, em alguns casos, depende dos critérios determinados pelas escolas, rompendo com a ideia de oferecimento universal e equânime de oportunidades educacionais.

A situação descrita ocorreu durante o trabalho de campo de um survey sobre a distribuição de oportunidades educacionais no Rio de Janeiro. O trabalho faz parte da pesquisa “O Funcionamento de Quase-Mercados Educacionais e a Segmentação Escolar” proposta pelos sociólogos Marcio da Costa e Mariane Koslinski. Insere-se, portanto, nos debates sobre desigualdades educacionais com foco na hierarquização e estratificação de escolas nos sistemas municipais de educação.

Inicialmente, o survey foi proposto com o objetivo de obter informações quantitativas sobre as escolhas feitas pelas famílias, com foco nos critérios que as orientam e nas estratégias utilizadas para o acesso às escolas. A pesquisa apresentava uma abordagem metodológica inovadora. Incluía, ao final do questionário, uma questão geral que deveria ser gravada. 

Os primeiros questionários indicaram que a gravação tornara-se importante porque os entrevistados apontavam detalhes dos processos de escolha e acesso às escolas. Os entrevistados também citavam informações relevantes enquanto respondiam às questões objetivas, mas estas informações não eram registradas porque o foco estava no questionário. Decidimos gravar todo o encontro de pesquisa e reconstruímos metodologicamente a investigação. Propusemos que os aplicadores trabalhassem em duplas e realizassem observações etnográficas durante os encontros de pesquisa. Foi necessário realizar um treinamento, que contribuiu para a reflexão sobre a prática antropológica e a “grafia” etnográfica. O resultado foi a ampliação do diálogo entre as abordagens antropológica e sociológica e, principalmente, o refinamento das análises empreendidas. 

Nesse trabalho temos dois objetivos: (i) descrever a organização da rede municipal de educação da cidade do Rio de Janeiro, principalmente o remanejamento de alunos do primeiro para o segundo segmento do ensino fundamental; (ii) apresentar os processos utilizados pelos agentes sociais que interagem em situações de escolha e disputa por vagas no ensino fundamental, utilizando os dados obtidos com as entrevistas e com as observações etnográficas.

A rede municipal do Rio de Janeiro tem uma peculiaridade: a maioria de suas escolas não oferece o ensino fundamental completo. Em geral as escolas oferecem um dos segmentos do ensino fundamental. Essa situação faz com que os alunos tenham que mudar de escola após os cinco primeiros anos de escolarização. Esse processo é denominado na rede de remanejamento. Até 2011, os pais escolhiam três escolas em ordem de prioridade e os filhos eram alocados em uma delas. Em 2011, os pais puderam escolher cinco escolas. A lista tríplice passou a ser lista quíntupla. Nossos entrevistados, no entanto, trocaram de escola em 2009 e preencheram a lista tríplice. 

Em todos os casos, os familiares precisam escolher as escolas que desejam para os filhos. A análise das entrevistas permitiu propor uma tipologia para a interpretação dos processos de escolha de escolas. Há três tipos de escolha: (i) Escolha com a utilização exclusiva da burocracia municipal (escolha dirigida), que corresponde a processos de escolha em que os pais não tiveram atuação direta na eleição da escola. São casos em que os familiares acatam à indicação realizada pela burocracia municipal para escolher a escola. Como consequência, os filhos têm acesso às escolas escolhidas para eles pela própria burocracia das escolas em que estudavam durante o primeiro segmento, (ii) Escolha com a utilização de relações pessoais na burocracia municipal, situação em que os pais consultaram suas redes de solidariedade/relações pessoais dentro da burocracia municipal para a orientação de suas escolhas e (iii) Escolha com a utilização de relações pessoais externas à burocracia municipal. Este tipo corresponde aos processos de escolha em que os pais consultaram suas redes de solidariedade/relações pessoais externas à burocracia municipal. 

Também identificamos três estratégias de acesso: (i) Acesso com a utilização exclusiva da burocracia municipal, que corresponde aos processos de matrícula em que os pais, após escolherem a escola desejada, iniciam o processo de acesso utilizando exclusivamente a burocracia municipal, (ii) Acesso com a utilização da burocracia e das relações pessoais, situação em que os pais, após escolherem a escola desejada, iniciam o processo de acesso utilizando redes de solidariedade/relações pessoais com pessoas da própria burocracia municipal ou com pessoas que os conectam à burocracia municipal para o início do processo de matrícula na escola desejada e (iii) acesso com a utilização exclusiva de redes de relações pessoais, que corresponde aos processos de matrícula em que os pais, após escolherem a escola desejada, iniciam o processo de acesso utilizando, exclusivamente, suas redes de solidariedade/relações pessoais fora da burocracia municipal. 

Os resultados e análises, embora preliminares, são expressivos e nos permitem ampliar o debate sobre a relação das camadas populares com a escolarização em um sistema estratificado. Os dados apontam que as redes sociais presentes no campo de possibilidades de cada família tendem a orientar as escolhas e os acessos às escolas, principalmente as mais prestigiadas, o que influencia diretamente a qualidade da formação escolar dos estudantes e desafia o ideário republicano de oferecimento universal e equânime de oportunidades educacionais.

domingo, 27 de maio de 2012

Lula, os pobres e o avião


O ex-presidente Lula fez, dia 21 de maio, um discurso que me levou a lembrar de uma situação vivida em um avião. Quem indicou a fala do Lula foi minha esposa. Busquei o discurso no oráculo moderno – google – e encontrei Lula dizendo que em seu governo os pobres passaram a “andar” de avião; e completou: "fazer pobre andar de avião é difícil". Concordo plenamente com ele não somente porque a observação mais rotineira percebe a presença dos mais pobres nos aeroportos, mas porque as análises de fluxo aéreo indicam a mesma coisa: os pobres estão “andando” muito de avião.

Os dados são sempre frios e é possível saber que tantos por cento dos mais pobres passaram a voar. Para um antropólogo os dados frios não são suficientes porque, seguindo Malinowski, é necessário rechear o esqueleto com a carne e o sangue da vida social para que ele expresse a realidade de maneira mais coerente.

Não sou pesquisador da área, mas vivi um fato interessante, em 2009, em um vôo direto de São Luis do Maranhão para o Rio de Janeiro, que serve para ilustrar o fenômeno para além das estatísticas. Já contei esta história em dezenas de mesas de bar e em todas elas o diagnóstico foi preciso: este é um retrato do Brasil de Lula. Vou contar para vocês. Lá vai...

Fiz alguns concursos antes de ingressar no magistério superior. O primeiro em que fui aprovado foi para a Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Na época, foi uma felicidade seguida de um transtorno. Minha mulher estava fazendo mestrado aqui no Rio e dependia da Biblioteca Nacional, o que a impedia de seguir comigo para São Luis. Fui sozinho e passei a fazer a “ponte aérea” São Luis/Rio em todos os feriados nacionais. Ela também fez algumas, mas o mundo manda que os homens corram atrás das mulheres e não o contrário.

O vôo não era dos mais agradáveis. Quatro horas seguidas, partindo de São Luis às duas horas da madrugada e chegando ao Rio às seis horas da manhã. Valia a pena, mas seguir para o aeroporto, embora poético, não era nenhuma delícia. Bom, em um destes finais de semana aconteceria um jogo de futebol entre o Flamengo e o Vasco, um jogo de campeonato.

Minha visão preconceituosa me obrigava a acreditar que ninguém, por mais fanático que fosse, iria pensar em futebol às duas da madrugada em um avião apertado, ainda em solo. Eis que entram oito homens, em fila indiana, sussurrando o hino do flamengo, balançando uma bandeira e batendo com as mãos no teto do avião. Eu estava lendo e, simultaneamente, cochilando. Pensei que estava sonhando, mas o sussurro foi ficando mais alto conforme a “equipe” se aproximava de mim. Todos uniformizados, cantavam o hino do flamengo, batiam com as mãos no teto e falavam sobre o avião enquanto buscavam seus lugares. Meu “instinto” antropológico despertou quando ouvi: “primeira vez de todo mundo junto”. Entendi que todos estavam voando pela primeira vez e tinham escolhido o Rio de Janeiro por causa do jogo do campeonato.

Fiquei pensando o quão democrática era aquela cena e como representava o Brasil pós- Lula. Confesso que só pensei assim até o começo do drama que se seguiu.

Estava tudo bem até que, não sei por quais motivos, um dos flamenguistas decidiu provocar o sujeito que estava sentado à sua frente. Começou com a tradicional brincadeira: “Ei bacalhau! Ei, Bacalhau! Vem chupar... o restante é impróprio para o Blog”. Ocorre que o sujeito da frente não gostou da brincadeira e pediu para parar.

Não satisfeito, o flamenguista decidiu passar a mão na cabeça do vascaíno e dizer para ele: “fica calminho”. Lembrem: tudo isso em um avião em solo às duas da madrugada!

O Vascaíno retirou, com violência, a mão do flamenguista de sua cabeça. Ele pediu, aos berros, para o flamenguista parar com aquilo.

Foi o suficiente para o irmão do flamenguista comprar a briga, sair de seu lugar gritando que ninguém faria aquilo com o irmão dele e “convidar” o vascaíno para uma luta no corredor do avião. De fato, ele arrancou o vascaíno da poltrona e os dois começaram a brigar.

Eu estava perto, bem perto dos torcedores lutadores e vi todos os socos que foram trocados; também vi a correria das aeromoças e ouvi os gritos assustados e atordoados dos passageiros, alguns diretamente envolvidos no trabalho coletivo de separar a briga.

A briga acabou e os passageiros voltaram para seus lugares rapidamente, inclusive os brigões. Ocorre que em 10 minutos havia um delegado da polícia federal, acompanhado de dois policiais para retirar os brigões do avião. O diálogo foi o seguinte:

- Olá, eu sou..., delegado da polícia federal. Fui convocado pelo piloto da aeronave e gostaria que os senhores me acompanhassem.

- O flamenguista respondeu com uma pergunta: para onde?

- Para fora da aeronave.

- Que isso, amanhã é jogo do mengão. Se eu não for nesse vôo já era.

- O vascaíno, solidário, disse: “que isso, seu puliça (sic), já tá tudo tranqüilo aqui, né não, irmão”.

- O flamenguista concordou de pronto, começou a chorar, abraçou o vascaíno e implorou ao “seu puliça” que o deixasse falar com o piloto. Ele acreditava piamente que poderia convencer o piloto a deixá-lo no avião. O principal argumento era o jogo do mengão.

- O vascaíno, emocionado e também chorando, pedia ao delegado que chamasse o piloto para uma conversa. Os dois se abraçavam e trocavam beijos copiosamente enquanto imploravam pela presença do piloto. Diziam, enfaticamente, que estava tudo bem, que não iriam brigar, que a “situação” já estava resolvida, e toma-lhe mais abraço e beijo.

- Depois de alguns minutos o delegado tentou encerrar a questão dizendo que caso os dois não saíssem por bem teriam que sair algemados.

Novamente, o flamenguista disse não entender o que estava acontecendo. Gritou que estava pagando a passagem em 10 vezes igual na “casa Bahia” só para ver o "mengão" e chorou dizendo que por causa de uma briguinha de nada tudo estava perdido.

O vascaíno, agora mais que solidário, o abraçou e os dois saíram juntos, escoltados pela polícia. Enquanto saíam, o grupo de flamenguistas gritava o nome do amigo e dizia ... “Fica tranqüilo, é nóis”. O flamenguista erguia os braços e respondia “é nóis!! É nois!!”.

O avião partiu com 50 minutos de atraso e sem nenhum comentário sobre futebol.

O drama descrito fez com que eu gostasse ainda mais do Brasil pós-Lula. É claro que xinguei todas as gerações passadas e futuras de ambos os torcedores. Afinal, foram 50 minutos de atraso. Porém, aquele momento fez com que eu percebesse que a progressiva distribuição de renda que permite que pessoas mais pobres comprem suas primeiras passagens de avião pagando em 10 vezes para ver o “mengão” democratiza tudo: o avião, o aeroporto, a circulação nacional e até mesmo os conflitos entre torcidas de futebol. No avião, alguns torceram o nariz, outros riram, outros fizeram comentários sobre a “barbaridade” da situação, mas todos participaram intensamente deste drama que tinha o futebol como principal pano de fundo. É a “cara do Brasil”, pós-Lula, é claro!!!

domingo, 13 de maio de 2012

Os pobres e a escola


Sou antropólogo e ministro aulas de sociologia e antropologia da educação. Em ambas, procuro trabalhar para a construção do “olhar relativizador”.  Todos os meus alunos são incentivados a descrever situações abrindo mão de adjetivos e advérbios de intensidade. O objetivo é impedir que os escritores apresentem realidades para os leitores que existem apenas na cabeça de quem faz a narração. 

Para aprender a descrever, os estudantes precisam levar a lição de Durkheim às últimas consequências. É preciso abandonar “pré-noções” e “juízos-de-valor” buscando uma análise o mais neutra possível. Na sequência, os estudantes aprendem que um escritor experiente pode disfarçar todos os seus preconceitos em um texto descritivo abandonando, inclusive, quaisquer adjetivos e advérbios de intensidade. Neste momento eles percebem que as questões são mais complexas. 

A questão posta é a seguinte: para aprender a escrever é fundamental saber ler um certo tipo de leitura. Qual seja: uma leitura que busque abandonar as lentes que fazem com que vejamos a realidade com base em uma única e limitadora perspectiva. A base para o início do trabalho é abandonar a tentação de ler a vida como ela está posta em nossas cabeças e buscar a vida que está na cabeça dos outros, valorizando o “ponto de vista nativo” relacionado às situações analisadas. 

Quando utilizo estes exercícios em aulas relacionadas aos processos de segmentação presentes nos sistemas escolares provoco os estudantes pedindo que expliquem o baixo desempenho dos alunos em áreas de baixo nível sócio econômico. Peço que falem, apresentem sua visão pessoal, utilizem os autores já discutidos para pensar sobre a questão e busquem análises neutras. 

Há, nestas aulas, um fenômeno curioso. Em todas elas os “pobres” ou as “classes populares” são pensados como uma grande massa homogênea. Falas como “não dá pra esperar que uma criança pobre tenha o mesmo desempenho de uma criança de classe média”, “é necessário entender que as famílias pobres têm baixas expectativas educacionais”, “não podemos esquecer que o contexto em que as crianças são criadas influencia a relação que elas desenvolvem com a escola”, “os pobres acabam aceitando qualquer escola para os filhos” aparecem em todos os debates. 

De início, incentivo as falas, instigo debates e, curiosamente, os estudantes tendem a concordar que a relação que os mais pobres desenvolvem com a escola é uma relação de submissão aos desígnios da própria escola. Importante indicar que não trabalho somente com estudantes de classe média. Há, principalmente nas licenciaturas, número significativo de estudantes oriundos das classes populares. 

Depois desta tempestade de ideias, critico todas as falas e apresento os dados da pesquisa que estou realizando. O objetivo da investigação é mapear e analisar as justificativas de escolha e as estratégias de acesso utilizadas por pais e responsáveis que desejam ou precisam matricular os filhos no sistema municipal de educação do Rio de Janeiro. Neste momento, os estudantes descobrem que as famílias populares devem ser pensadas no plural. Há famílias com baixas expectativas educacionais que, de fato, aceitam os desígnios da escola. Porém, também existem famílias que conhecem e reconhecem a qualidade das melhores escolas da rede municipal e utilizam todas as estratégias presentes em seus campos de possibilidades para matricular os filhos nestas escolas. Há pais que buscam ajuda na burocracia municipal, que passam o ano inteiro visitando as escolas e acompanhando seus filhos, que buscam publicações sobre desempenho escolar e que, principalmente, incentivam seus filhos a dar o melhor de si para a escola. 

Depois que apresento os dados, os alunos pedem a palavra novamente e começam a contas dezenas de histórias de famílias populares que se esforçaram para conseguir vagas nas melhores escolas. Ao final destas aulas, alguns estudantes me procuram individualmente para contar suas histórias e o papel de seus pais. Já ouvi muitos relatos e todos indicam que se não fosse pela insistência de seus pais durante a educação básica, eles não teriam estudando em escolas publicas de qualidade e, como consequência, em sua visão, não estariam na UFRJ.

Estes exercícios permitem perceber a força de representações coletivas que associam pobreza material a baixo desempenho escolar e expectativas negativas relacionadas aos processos educacionais. Quando problematizamos estas classificações percebemos que os pobres são plurais e que também há, entre os pobres, alto desempenho e expectativas positivas sobre a escola e a capacidade de seus filhos. 

E você, conhece alguma historia de sucesso escolar nos meios populares?

domingo, 29 de abril de 2012

O frio dos Cariocas e o frio do Brasil


Hoje, para os padrões cariocas, está frio. Talvez até muito frio. Para os cariocas, não há nada mais estranho no Rio de Janeiro do que o frio. Eu não sou carioca e quase tenho vergonha de dizer isso por aqui, mas gosto do frio. Minha mulher quase me mata quando digo isso porque ela, carioca da gema, já está com todas as janelas fechadas para que o frio não a ataque e acabe com toda sua "carioquidade". 

 

Talvez um dos melhores elementos orientadores da cultura carioca seja o sol e o calor que ele proporciona. Se domingo for dia de sol é dia de ir para a praia, tomar um chope, conversar com amigos, caminhar na orla, visitar as paineiras, ficar de bobeira... Se não for dia de sol, ao contrário, o mundo acaba para os cariocas e não se faz nada disso. 

 

Fiquei pensando nestas questões porque acabei de ler um artigo do Vitor Ramil chamado “A estética do Frio”. Para quem não o conhece, Vitor Ramil é um compositor, cantor e escritor gaúcho. Ele escreveu este texto como uma viagem introspectiva à sua própria identidade gaúcha. Ele diz que o frio define os gaúchos para o resto do Brasil e que, como causa e consequência, também define o gaúcho para o próprio gaúcho. O artigo completo está disponível em: http://minerva.ufpel.edu.br/~ramil/vitor/estfrio.htm

 

Este artigo veio como dom em um circuito de reciprocidade que tenho desenvolvido com meu amigo Luiz Colatto. Colatto também é um homem do sul e, nesta lógica, assim como Vitor Ramil, é um homem do frio. Agora fora do sul, ele estranha quando se apresenta como um homem do sul e todos, imediatamente, dizem que faz muito frio lá, mesmo aqueles que nunca foram ao Sul. Ponto para o Vitor Ramil! O frio define os gaúchos para o resto do Brasil e eu diria que define todas as pessoas que vivem no sul. A representação é maior até mesmo que os gaúchos. 

 

Confesso que quando fui pela primeira vez a Porto Alegre estava buscando o frio. E o encontrei! Mas não era um frio tão frio assim. O inverno de Petrópolis não fica tão atrás. Para meus colegas que estavam no mesmo congresso, pelo contrário, o frio era o frio mais frio do mundo. Todos estavam com gorros, cachecóis, botas de couro, casacos e mais casacos. Além disso, reclamavam o tempo todo porque estavam no frio, mas também estavam felizes por isso. 

 

Esta conversa sobre a relação dos homens com as intempéries da natureza é uma das pedras de toque da antropologia. Marcel Mauss foi um dos pioneiros quando analisou as variações sazoneiras das sociedades esquimó e identificou que dois povos que viviam no frio se relacionavam com ele de maneira diferente. O ponto trazido por Mauss é preciso: os homens se relacionam com a natureza em um tipo de interação nada mecânica. Simbolizam o frio e o calor e os transformam em elementos integrantes de sua identidade cultural. 

 

Os cariocas se opõem aos gaúchos. Os gaúchos são "homens do frio" e os cariocas, "homens do calor". O mais curioso nesta história é que a gente sempre esquece que os cariocas também lidam com o frio e que os gaúchos também têm verão.  Mesmo assim, talvez possamos dizer que o verão define os cariocas na mesma medida em que o inverno define os gaúchos. Os cariocas, agora, como minha mulher, fogem do frio, fecham as janelas e resguardam sua “carioquidade” à espera do verão. Para os gaúchos, ao contrário, é hora de expandir toda sua “gauchidade”. Vale a pena observar as cidades nestes momentos. No Rio, acreditem, há cachecóis e tocas pelas ruas. Você já usou um cachecol no Rio? Eu não! Afinal, sou serrano e tenho um pacto simbólico com os “homens do frio”. 

 

Viva o frio!!