Quem sou eu

Minha foto
Sou um antropólogo brasileiro especializado em temas educacionais. Meus trabalhos focalizam as relações existentes entre a educação escolar e outras esferas da vida social. Atualmente, desenvolvo pesquisas sobre estratégias familiares e projetos de escolarização nas camadas populares das cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis, ambas no Brasil. A abordagem inclui reflexões sobre a educação básica e o ensino superior. O debate sobre a construção social das juventudes é privilegiado porque permite interpretações refinadas sobre as relações entre educação escolar e expectativas de futuro. Trabalho no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ onde ensino antropologia e sociologia da educação, além de orientar estudantes interessados no debate entre ciências sociais e educação.

domingo, 27 de maio de 2012

Lula, os pobres e o avião


O ex-presidente Lula fez, dia 21 de maio, um discurso que me levou a lembrar de uma situação vivida em um avião. Quem indicou a fala do Lula foi minha esposa. Busquei o discurso no oráculo moderno – google – e encontrei Lula dizendo que em seu governo os pobres passaram a “andar” de avião; e completou: "fazer pobre andar de avião é difícil". Concordo plenamente com ele não somente porque a observação mais rotineira percebe a presença dos mais pobres nos aeroportos, mas porque as análises de fluxo aéreo indicam a mesma coisa: os pobres estão “andando” muito de avião.

Os dados são sempre frios e é possível saber que tantos por cento dos mais pobres passaram a voar. Para um antropólogo os dados frios não são suficientes porque, seguindo Malinowski, é necessário rechear o esqueleto com a carne e o sangue da vida social para que ele expresse a realidade de maneira mais coerente.

Não sou pesquisador da área, mas vivi um fato interessante, em 2009, em um vôo direto de São Luis do Maranhão para o Rio de Janeiro, que serve para ilustrar o fenômeno para além das estatísticas. Já contei esta história em dezenas de mesas de bar e em todas elas o diagnóstico foi preciso: este é um retrato do Brasil de Lula. Vou contar para vocês. Lá vai...

Fiz alguns concursos antes de ingressar no magistério superior. O primeiro em que fui aprovado foi para a Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Na época, foi uma felicidade seguida de um transtorno. Minha mulher estava fazendo mestrado aqui no Rio e dependia da Biblioteca Nacional, o que a impedia de seguir comigo para São Luis. Fui sozinho e passei a fazer a “ponte aérea” São Luis/Rio em todos os feriados nacionais. Ela também fez algumas, mas o mundo manda que os homens corram atrás das mulheres e não o contrário.

O vôo não era dos mais agradáveis. Quatro horas seguidas, partindo de São Luis às duas horas da madrugada e chegando ao Rio às seis horas da manhã. Valia a pena, mas seguir para o aeroporto, embora poético, não era nenhuma delícia. Bom, em um destes finais de semana aconteceria um jogo de futebol entre o Flamengo e o Vasco, um jogo de campeonato.

Minha visão preconceituosa me obrigava a acreditar que ninguém, por mais fanático que fosse, iria pensar em futebol às duas da madrugada em um avião apertado, ainda em solo. Eis que entram oito homens, em fila indiana, sussurrando o hino do flamengo, balançando uma bandeira e batendo com as mãos no teto do avião. Eu estava lendo e, simultaneamente, cochilando. Pensei que estava sonhando, mas o sussurro foi ficando mais alto conforme a “equipe” se aproximava de mim. Todos uniformizados, cantavam o hino do flamengo, batiam com as mãos no teto e falavam sobre o avião enquanto buscavam seus lugares. Meu “instinto” antropológico despertou quando ouvi: “primeira vez de todo mundo junto”. Entendi que todos estavam voando pela primeira vez e tinham escolhido o Rio de Janeiro por causa do jogo do campeonato.

Fiquei pensando o quão democrática era aquela cena e como representava o Brasil pós- Lula. Confesso que só pensei assim até o começo do drama que se seguiu.

Estava tudo bem até que, não sei por quais motivos, um dos flamenguistas decidiu provocar o sujeito que estava sentado à sua frente. Começou com a tradicional brincadeira: “Ei bacalhau! Ei, Bacalhau! Vem chupar... o restante é impróprio para o Blog”. Ocorre que o sujeito da frente não gostou da brincadeira e pediu para parar.

Não satisfeito, o flamenguista decidiu passar a mão na cabeça do vascaíno e dizer para ele: “fica calminho”. Lembrem: tudo isso em um avião em solo às duas da madrugada!

O Vascaíno retirou, com violência, a mão do flamenguista de sua cabeça. Ele pediu, aos berros, para o flamenguista parar com aquilo.

Foi o suficiente para o irmão do flamenguista comprar a briga, sair de seu lugar gritando que ninguém faria aquilo com o irmão dele e “convidar” o vascaíno para uma luta no corredor do avião. De fato, ele arrancou o vascaíno da poltrona e os dois começaram a brigar.

Eu estava perto, bem perto dos torcedores lutadores e vi todos os socos que foram trocados; também vi a correria das aeromoças e ouvi os gritos assustados e atordoados dos passageiros, alguns diretamente envolvidos no trabalho coletivo de separar a briga.

A briga acabou e os passageiros voltaram para seus lugares rapidamente, inclusive os brigões. Ocorre que em 10 minutos havia um delegado da polícia federal, acompanhado de dois policiais para retirar os brigões do avião. O diálogo foi o seguinte:

- Olá, eu sou..., delegado da polícia federal. Fui convocado pelo piloto da aeronave e gostaria que os senhores me acompanhassem.

- O flamenguista respondeu com uma pergunta: para onde?

- Para fora da aeronave.

- Que isso, amanhã é jogo do mengão. Se eu não for nesse vôo já era.

- O vascaíno, solidário, disse: “que isso, seu puliça (sic), já tá tudo tranqüilo aqui, né não, irmão”.

- O flamenguista concordou de pronto, começou a chorar, abraçou o vascaíno e implorou ao “seu puliça” que o deixasse falar com o piloto. Ele acreditava piamente que poderia convencer o piloto a deixá-lo no avião. O principal argumento era o jogo do mengão.

- O vascaíno, emocionado e também chorando, pedia ao delegado que chamasse o piloto para uma conversa. Os dois se abraçavam e trocavam beijos copiosamente enquanto imploravam pela presença do piloto. Diziam, enfaticamente, que estava tudo bem, que não iriam brigar, que a “situação” já estava resolvida, e toma-lhe mais abraço e beijo.

- Depois de alguns minutos o delegado tentou encerrar a questão dizendo que caso os dois não saíssem por bem teriam que sair algemados.

Novamente, o flamenguista disse não entender o que estava acontecendo. Gritou que estava pagando a passagem em 10 vezes igual na “casa Bahia” só para ver o "mengão" e chorou dizendo que por causa de uma briguinha de nada tudo estava perdido.

O vascaíno, agora mais que solidário, o abraçou e os dois saíram juntos, escoltados pela polícia. Enquanto saíam, o grupo de flamenguistas gritava o nome do amigo e dizia ... “Fica tranqüilo, é nóis”. O flamenguista erguia os braços e respondia “é nóis!! É nois!!”.

O avião partiu com 50 minutos de atraso e sem nenhum comentário sobre futebol.

O drama descrito fez com que eu gostasse ainda mais do Brasil pós-Lula. É claro que xinguei todas as gerações passadas e futuras de ambos os torcedores. Afinal, foram 50 minutos de atraso. Porém, aquele momento fez com que eu percebesse que a progressiva distribuição de renda que permite que pessoas mais pobres comprem suas primeiras passagens de avião pagando em 10 vezes para ver o “mengão” democratiza tudo: o avião, o aeroporto, a circulação nacional e até mesmo os conflitos entre torcidas de futebol. No avião, alguns torceram o nariz, outros riram, outros fizeram comentários sobre a “barbaridade” da situação, mas todos participaram intensamente deste drama que tinha o futebol como principal pano de fundo. É a “cara do Brasil”, pós-Lula, é claro!!!

domingo, 13 de maio de 2012

Os pobres e a escola


Sou antropólogo e ministro aulas de sociologia e antropologia da educação. Em ambas, procuro trabalhar para a construção do “olhar relativizador”.  Todos os meus alunos são incentivados a descrever situações abrindo mão de adjetivos e advérbios de intensidade. O objetivo é impedir que os escritores apresentem realidades para os leitores que existem apenas na cabeça de quem faz a narração. 

Para aprender a descrever, os estudantes precisam levar a lição de Durkheim às últimas consequências. É preciso abandonar “pré-noções” e “juízos-de-valor” buscando uma análise o mais neutra possível. Na sequência, os estudantes aprendem que um escritor experiente pode disfarçar todos os seus preconceitos em um texto descritivo abandonando, inclusive, quaisquer adjetivos e advérbios de intensidade. Neste momento eles percebem que as questões são mais complexas. 

A questão posta é a seguinte: para aprender a escrever é fundamental saber ler um certo tipo de leitura. Qual seja: uma leitura que busque abandonar as lentes que fazem com que vejamos a realidade com base em uma única e limitadora perspectiva. A base para o início do trabalho é abandonar a tentação de ler a vida como ela está posta em nossas cabeças e buscar a vida que está na cabeça dos outros, valorizando o “ponto de vista nativo” relacionado às situações analisadas. 

Quando utilizo estes exercícios em aulas relacionadas aos processos de segmentação presentes nos sistemas escolares provoco os estudantes pedindo que expliquem o baixo desempenho dos alunos em áreas de baixo nível sócio econômico. Peço que falem, apresentem sua visão pessoal, utilizem os autores já discutidos para pensar sobre a questão e busquem análises neutras. 

Há, nestas aulas, um fenômeno curioso. Em todas elas os “pobres” ou as “classes populares” são pensados como uma grande massa homogênea. Falas como “não dá pra esperar que uma criança pobre tenha o mesmo desempenho de uma criança de classe média”, “é necessário entender que as famílias pobres têm baixas expectativas educacionais”, “não podemos esquecer que o contexto em que as crianças são criadas influencia a relação que elas desenvolvem com a escola”, “os pobres acabam aceitando qualquer escola para os filhos” aparecem em todos os debates. 

De início, incentivo as falas, instigo debates e, curiosamente, os estudantes tendem a concordar que a relação que os mais pobres desenvolvem com a escola é uma relação de submissão aos desígnios da própria escola. Importante indicar que não trabalho somente com estudantes de classe média. Há, principalmente nas licenciaturas, número significativo de estudantes oriundos das classes populares. 

Depois desta tempestade de ideias, critico todas as falas e apresento os dados da pesquisa que estou realizando. O objetivo da investigação é mapear e analisar as justificativas de escolha e as estratégias de acesso utilizadas por pais e responsáveis que desejam ou precisam matricular os filhos no sistema municipal de educação do Rio de Janeiro. Neste momento, os estudantes descobrem que as famílias populares devem ser pensadas no plural. Há famílias com baixas expectativas educacionais que, de fato, aceitam os desígnios da escola. Porém, também existem famílias que conhecem e reconhecem a qualidade das melhores escolas da rede municipal e utilizam todas as estratégias presentes em seus campos de possibilidades para matricular os filhos nestas escolas. Há pais que buscam ajuda na burocracia municipal, que passam o ano inteiro visitando as escolas e acompanhando seus filhos, que buscam publicações sobre desempenho escolar e que, principalmente, incentivam seus filhos a dar o melhor de si para a escola. 

Depois que apresento os dados, os alunos pedem a palavra novamente e começam a contas dezenas de histórias de famílias populares que se esforçaram para conseguir vagas nas melhores escolas. Ao final destas aulas, alguns estudantes me procuram individualmente para contar suas histórias e o papel de seus pais. Já ouvi muitos relatos e todos indicam que se não fosse pela insistência de seus pais durante a educação básica, eles não teriam estudando em escolas publicas de qualidade e, como consequência, em sua visão, não estariam na UFRJ.

Estes exercícios permitem perceber a força de representações coletivas que associam pobreza material a baixo desempenho escolar e expectativas negativas relacionadas aos processos educacionais. Quando problematizamos estas classificações percebemos que os pobres são plurais e que também há, entre os pobres, alto desempenho e expectativas positivas sobre a escola e a capacidade de seus filhos. 

E você, conhece alguma historia de sucesso escolar nos meios populares?

domingo, 29 de abril de 2012

O frio dos Cariocas e o frio do Brasil


Hoje, para os padrões cariocas, está frio. Talvez até muito frio. Para os cariocas, não há nada mais estranho no Rio de Janeiro do que o frio. Eu não sou carioca e quase tenho vergonha de dizer isso por aqui, mas gosto do frio. Minha mulher quase me mata quando digo isso porque ela, carioca da gema, já está com todas as janelas fechadas para que o frio não a ataque e acabe com toda sua "carioquidade". 

 

Talvez um dos melhores elementos orientadores da cultura carioca seja o sol e o calor que ele proporciona. Se domingo for dia de sol é dia de ir para a praia, tomar um chope, conversar com amigos, caminhar na orla, visitar as paineiras, ficar de bobeira... Se não for dia de sol, ao contrário, o mundo acaba para os cariocas e não se faz nada disso. 

 

Fiquei pensando nestas questões porque acabei de ler um artigo do Vitor Ramil chamado “A estética do Frio”. Para quem não o conhece, Vitor Ramil é um compositor, cantor e escritor gaúcho. Ele escreveu este texto como uma viagem introspectiva à sua própria identidade gaúcha. Ele diz que o frio define os gaúchos para o resto do Brasil e que, como causa e consequência, também define o gaúcho para o próprio gaúcho. O artigo completo está disponível em: http://minerva.ufpel.edu.br/~ramil/vitor/estfrio.htm

 

Este artigo veio como dom em um circuito de reciprocidade que tenho desenvolvido com meu amigo Luiz Colatto. Colatto também é um homem do sul e, nesta lógica, assim como Vitor Ramil, é um homem do frio. Agora fora do sul, ele estranha quando se apresenta como um homem do sul e todos, imediatamente, dizem que faz muito frio lá, mesmo aqueles que nunca foram ao Sul. Ponto para o Vitor Ramil! O frio define os gaúchos para o resto do Brasil e eu diria que define todas as pessoas que vivem no sul. A representação é maior até mesmo que os gaúchos. 

 

Confesso que quando fui pela primeira vez a Porto Alegre estava buscando o frio. E o encontrei! Mas não era um frio tão frio assim. O inverno de Petrópolis não fica tão atrás. Para meus colegas que estavam no mesmo congresso, pelo contrário, o frio era o frio mais frio do mundo. Todos estavam com gorros, cachecóis, botas de couro, casacos e mais casacos. Além disso, reclamavam o tempo todo porque estavam no frio, mas também estavam felizes por isso. 

 

Esta conversa sobre a relação dos homens com as intempéries da natureza é uma das pedras de toque da antropologia. Marcel Mauss foi um dos pioneiros quando analisou as variações sazoneiras das sociedades esquimó e identificou que dois povos que viviam no frio se relacionavam com ele de maneira diferente. O ponto trazido por Mauss é preciso: os homens se relacionam com a natureza em um tipo de interação nada mecânica. Simbolizam o frio e o calor e os transformam em elementos integrantes de sua identidade cultural. 

 

Os cariocas se opõem aos gaúchos. Os gaúchos são "homens do frio" e os cariocas, "homens do calor". O mais curioso nesta história é que a gente sempre esquece que os cariocas também lidam com o frio e que os gaúchos também têm verão.  Mesmo assim, talvez possamos dizer que o verão define os cariocas na mesma medida em que o inverno define os gaúchos. Os cariocas, agora, como minha mulher, fogem do frio, fecham as janelas e resguardam sua “carioquidade” à espera do verão. Para os gaúchos, ao contrário, é hora de expandir toda sua “gauchidade”. Vale a pena observar as cidades nestes momentos. No Rio, acreditem, há cachecóis e tocas pelas ruas. Você já usou um cachecol no Rio? Eu não! Afinal, sou serrano e tenho um pacto simbólico com os “homens do frio”. 

 

Viva o frio!!

domingo, 15 de abril de 2012

Gilberto Velho morreu. Viva Gilberto Velho!

“A antropologia acaba de ter uma grande perda. Nossa, de tanto falarmos dele, parece até que eu o conhecia”.

Foi desta forma que ontem, 14 de abril de 2012, recebi a notícia da morte de Gilberto Velho. Uma mensagem de celular enviada por uma de minhas estudantes de iniciação científica. Ela está no terceiro período do curso de pedagogia da UFRJ e teve, comigo, uma disciplina de antropologia onde discutimos um dos textos clássicos do autor - “Observando o familiar” - e falamos sobre a extensa e refinada obra de Gilberto Velho.

Ouso dizer que todos os antropólogos brasileiros que tiveram, nas últimas quatro décadas, algum interesse pela antropologia urbana, leram, discutiram ou foram formados por Gilberto Velho. Trata-se de uma quase onipresença neste campo de estudos que foi, inclusive, progressivamente revigorado pelo esforço do autor na formação de especialistas. Isso sem contar com as contribuições que ele ofereceu para a internacionalização da antropologia brasileira. Dialogou com pesquisadores sobre o Brasil e outros temas, incentivou estudantes para que fossem estudar em universidades estrangeiras e recebeu os estudantes estrangeiros no Museu Nacional de Antropologia.

A comunidade antropológica do Brasil prestará muitas e devidas homenagens ao autor. Eu quis registrar esta, feita de maneira singela por uma jovem estudante que envia uma mensagem para o professor que a apresentou ao texto do Gilberto Velho e a fez pensar e sentir como se conhecesse o próprio Gilberto Velho.

O título da postagem expressa o que penso sobre este fenômeno. Gilberto velho morreu, mas está vivíssimo em todos os pesquisadores que ele formou. Ele também renasce em cada estudante de antropologia, ciências sociais, pedagogia... que lê seus textos e descobre, com certo fascínio, que é possível fazer uma boa antropologia quando se descobre que os outros podem estar muito próximos fisicamente, mas não deixam de ser outros, e bem outros.


Viva Gilberto Velho!!!


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Nasce o LaPOpe

O Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais – LaPOpe é fruto do encontro entre sociólogos, antropólogos e pedagogos que têm a educação como tema de pesquisa. Ele é composto por Marcio da Costa, Mariane Koslinski, Ana Pires do Prado, Rosana Heringer, Gabriela Honorato, Silvina Fernandéz e por mim. Todos somos professores e pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

As pesquisas desenvolvidas no LaPope agregam as metodologias quantitativa e qualitativa e têm por objetivo ampliar a reflexão sobre os sistemas educacionais. A perspectiva comparativa orienta as análises e visa construir conceitos e modelos analíticos que incluam as especificidades de cada sistema educacional analisado e, simultaneamente, permitam pensar nos sistemas educacionais de maneira universal.

O LaPOpe funciona na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em breve acontecerá o lançamento oficial de nosso site. Nele, apresentaremos nossos projetos de pesquisa e disponibilizaremos nossos artigos e livros. Por enquanto, os contatos podem ser feitos diretamente com os professores. No meu caso, os contatos também podem ser feitos aqui pelo Blog.

domingo, 1 de abril de 2012

Malinowski e o olhar antropológico

Bronislaw Malinowski é leitura obrigatória em qualquer curso de antropologia, tanto os que são montados para alunos de ciências sociais quanto aqueles oferecidos para estudantes de outras áreas. O autor é usado como exemplo de pesquisa de campo intensiva, o que envolve problematização, organização, escrita e, principalmente, treinamento do olhar.

Semana passada, participei de uma atividade que envolveu professores, estudantes de graduação e docentes da educação básica. O objetivo era discutir a proposta metodológica apresentada por Malinowski e iniciar um treinamento em pesquisa qualitativa, com ênfase na abordagem etnográfica.

Foi um momento interessante porque aqueles que ainda não conheciam o trabalho de Malinowski tiveram a oportunidade de apresentar as questões que a leitura do texto “Objetivo, método e alcance desta pesquisa[1] despertou. Foram muitas questões, principalmente relacionadas ao famoso recurso narrativo: “Imagine-se...”. Malinowski diz: “Imagine-se de repente desembarcado, rodeado por todo o seu equipamento, só, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, enquanto a lancha ou bote que o trouxe se afasta até desaparecer no horizonte (...)”.

A ideia é transportar o leitor para o primeiro momento em que o antropólogo se depara diretamente com o campo; um momento importante para a definição do profissional que decide fazer antropologia. Ele convida o leitor para um encontro objetivo com a cultura Trobriand e, simultaneamente, para um encontro subjetivo com o antropólogo que, naquele momento, estuda os Trobriand.

Quem parece mais com quem? O leitor pode se sentir identificado com as alegrias e agruras vividas por Malinowski, mas também pode sentir empatia pela cultura das Ilhas Trobriand. O recurso “Imagine-se...” neste caso, permite que o leitor passeie pelo texto malinowskiano como quem passeia por um texto literário. É claro que há diferenças e distâncias significativas entre o texto literário e o texto antropológico, mas... em ambos os casos o autor precisa contar uma história par um leitor desconhecido.

No bate-papo com os professores da educação básica, as identificações mais frequentes ocorreram entre eles e Malinowski. A justitifcativa pode estar no fato de eles terem lido apenas o capítulo que fala do método. Neste, os nativos das Ilhas Trobriand aparecem, mas muito pouco. Mas há outras leituras possíveis: os professores imaginaram a situação, se colocaram no lugar de Malinowski e pensaram no que fariam neste contexto.

O recado final do texto de Malinowski é: a antropologia precisa compreender o mundo com base na perspectiva do outro. Encontrar e analisar o “ponto de vista do nativo” passou a ser, a partir de Malinowski, a principal obsessão dos antropólogos. Ela tem nos guiado, inclusive, na antropologia urbana onde há a ilusão inicial de que os outros não são tão outros assim.

O recado final da atividade que desenvolvi com os professores é: quando levamos o recurso “Imagine-se...” às últimas consequências, podemos aplicar a proposta malinowskiana à leitura do próprio texto de Malinowski. De certa forma, quando os professores simpatizaram com Malinowski o fizeram porque estavam respeitando o ponto de vista de Malinowski sobre aquele mundo que ele próprio apresentava aos seus leitores.

E você, o que acha disso? Deixe seu comentário. 

Um detalhe: recebi alguns e-mails onde leitores reclamavam da necessidade de identificação para a postagem de comentários. Atendendo a pedidos... liberei as postagens. Não há necessidade de identificação. 
  



[1] Publicado em GUIMARÃES, A. Z. Desvendando Máscaras Sociais. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1980.

domingo, 18 de março de 2012

Conversa de taxista: a praia, o metrô e a diferença.


Uma das coisas mais interessantes no Rio de Janeiro é andar de táxi. O serviço não é dos mais baratos, nem dos melhores, mas o tempo que se passa junto aos taxistas pode ensinar sobre as coisas da vida. 

No verão de 2011 peguei um taxi em Ipanema. Seguia em direção ao Largo do Machado quando o motorista começou a puxar conversa. Perguntou se eu estava na praia e eu disse que não. Ele respondeu: “faz o senhor muito bem!”. Não entendi a colocação, muito menos a ênfase e decidi perguntar por quais motivos ele considerava que não seria bom estar na praia. Foi o suficiente para o taxista contar toda sua história familiar até chegar aos motivos da afirmação. 

Ele contou que nasceu em uma família de classe média alta, que vivia em Copacabana. Com a morte do pai, os bens da família foram sumindo porque não havia ninguém que sustentasse os luxos, o padrão e o estilo de vida. Simbolicamente, a família ainda se pensava e se auto-representava como uma família de classe média alta, mas materialmente estava cada vez mais próxima das classes trabalhadoras. 

Com o passar dos anos, a situação financeira piorou ainda mais, os bens foram vendidos e o patrimônio quase desapareceu. Como herança, sobrou o apartamento de Copacabana e uma pequena quantia em dinheiro. O que fazer? Sua decisão foi comprar um táxi porque já que teria que trabalhar seria melhor trabalhar por conta própria. Ele não suportaria horários fixos e um patrão. Além disso, poderia continuar vivendo e convivendo em Copacabana. 

Depois da história familiar ele emendou dizendo que se sentia muito feliz por não gostar mais de ir à praia. Comentou que frequentara a praia por muitos anos e que passara a adolescência e boa parte da juventude com seus amigos na praia. Foi quando disse que naquela época a praia era outra: cheia de gente bonita, com pessoas agradáveis que aproveitavam o sol para um mergulho, leitura ou conversa silenciosa com os amigos. Agora, diz ele, não se consegue mais nada disso em Copacabana. “É uma farofada, gente ouvindo música alta, ninguém mais lê e a praia vive lotada”. Seu diagnóstico dizia: “é culpa do metrô”. Ele afirmou com toda ênfase que antes da chegada do metrô a praia era diferente. 

E ele completou: o senhor pode se preparar porque vai acontecer a mesma coisa com Ipanema. Agora que o Metrô está por lá, pode esquecer. Ipanema vai acabar da mesma forma que Copacabana acabou. No final de semana, então, será impossível!

Minha conversa com o taxista me fez pensar em uma das temáticas que fundaram a moderna reflexão antropológica: o debate sobre a construção social da diferença. Ele identificava a decadência material de sua família como um problema, mas não a associava à “decadência” dos modos de vida e padrões de comportamento. Chegou a dizer que trabalhava como taxista, mas não era muito taxista. Separava, portanto, sua existência profissional da existência profissional dos outros taxistas. Ele era um “cara de Copacabana” e não aceitava que outras pessoas “invadissem” o espaço que classificava como seu. Em seu discurso estava implícito que essas pessoas que comem farofa, ouvem músicas altas, e falam o tempo todo não podem ser pessoas de Copacabana. Por isso, ele estava decidido e concluiu toda a história dizendo: “nunca mais irei à praia”. A sentença era justificada da seguinte forma: “porque a praia acabou”. 

Quando deixei o taxi fiquei pensando na conversa e no metrô. É incrível como um transporte público aproxima as pessoas geograficamente e, ao mesmo tempo, faz com que os processos simbólicos de construção das diferenças sejam ampliados e até mesmo exacerbados. É claro que o taxista apresenta uma visão que não é, evidentemente, a visão de todos os moradores de Copacabana, mas é uma visão de alguém que reside em Copacabana. Às vezes, a ampliação da proximidade geográfica aumenta, simultaneamente, as distâncias culturais, mas também podem surgir movimentos interessantes no meio deste espaço de conflito. 

Seria bom saber o que pensam sobre os moradores de Copacabana aqueles que não vivem no Bairro e usam o metrô para ir à praia. Não vou me alongar. Afinal, é apenas uma postagem. Muitos antropólogos competentes já estudaram as areias cariocas e os bairros da zona sul: Mirian Goldenberg, Gilberto Velho, Fabiano Gontijo, Patrícia Farias, Marisol Goia, Stéphane Malysse, entre muitos outros. Vale a pena lê-los.